COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

Além de gerar alimentos saudáveis, as sementes crioulas são também patrimônios genéticos e culturais em vários estados brasileiros, como a Paraíba. Confira a reportagem:

 

(Por Daniel Lamir e Simone Benevides, ASA*)

Da terra à mesa, os alimentos que consumimos seguem caminhos ainda pouco conhecidos pela população. Ao levantarmos a bandeira do direito humano à alimentação adequada, é preciso exigir que este caminho se inicie sem transgenia ou agrotóxicos, por exemplo. 

Nesta perspectiva, as sementes crioulas, além de gerar alimentos saudáveis, são também patrimônios genéticos e culturais em vários estados brasileiros. A ação política de preservação e apoio à multiplicação das sementes crioulas é uma das estratégias fundamentais para a convivência com o Semiárido. 

Na Paraíba, em 1998, as espécies crioulas foram batizadas como Sementes da Paixão, uma simbologia que representa a preservação e multiplicação das conhecidas sementes que são mantidas pelas guardiãs e guardiões de sementes.

Uma dessas pessoas protetoras é a agricultora Terezinha da Silva Batista (Imagem), moradora do Sítio Videu, em Solânea (PB). Ela participa da dinâmica de um banco de sementes comunitário para guardar e multiplicar as espécies locais, guardadas há gerações, garantindo saúde e fortalecendo os laços de solidariedade.

“A minha Semente da Paixão é a do feijão cacho. Guardo não só para mim, mas pra um vizinho, pra quem precisar. Aqui quando os meninos têm anemia, basta tomar o caldo desse feijão, que ficam bons. O Banco de Sementes é uma mãe, um pai, é tudo para nós. Enquanto Deus me der vida e saúde eu vou continuar guardando essa semente e zelando por ela”, disse a agricultora. 

O reconhecimento das Sementes da Paixão também está presente na ciência. Entre 2009 e 2011, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa Tabuleiros Costeiros, em parceria com a Articulação Semiárido Paraibano (ASA-PB), desenvolveu uma pesquisa comparativa entre as sementes crioulas locais e as sementes comerciais em dois territórios paraibanos. Tanto na Borborema quanto no Cariri paraibano, os ensaios apontaram que as sementes crioulas locais (da Paixão) são iguais ou superiores às comerciais no quesito produtividade. Porém, em épocas de estiagem, as sementes locais levam vantagem diante das sementes comerciais.

“O significado [da pesquisa] descreve informações relevantes das variedades de milho das Sementes da Paixão e ao mesmo tempo coloca essas variedades em campo. Sendo também que as características apontadas pela pesquisa, foram estabelecidas pelos próprios agricultores. Esse diálogo, nunca foi possível em nenhuma pesquisa feita antes, isso valorizou o conhecimento dos próprios agricultores e comprovou o que eles já diziam, que o milho dos bancos de sementes são mais adaptados e resistentes do que os que vêm de fora”, apontou o pesquisador e membro da Rede de Sementes da ASA Paraíba, Emanuel Dias.

A pesquisa permanece gerando frutos. Ela deixou de ser um projeto individual e, hoje, é um programa de pesquisa consolidado nas instituições de ensino, nas universidades e nas organizações sociais. Além disso, neste momento, está  sendo  realizada uma pesquisa com espécies de feijão, incluindo as variedades que estão sendo distribuídas pelo Programa Sementes do Semiárido da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA).

“Estamos estudando 10 variedades de feijão nos quesitos resistência, adaptação, produção e produtividade. Sete dessas, são dos bancos comunitários e três estão no Programa Sementes do Semiárido. O anseio dos agricultores é dizer que tem uma variedade de sementes que produz sob qualquer adversidade e fazer com que isso seja reconhecido dentro dos programas públicos de sementes. É uma luta que não pode parar”, disse Emanuel.

A alimentação saudável e a sustentabilidade ambiental e social, além da autonomia das famílias camponesas, são relevantes argumentos que sustentam as Sementes da Paixão. Por outro lado, existe uma força econômica que provoca devastação em extensões enormes de terras, uso de toneladas de venenos, além da concentração de terra e renda, que é a força do agronegócio.

Além das práticas mercadológicas com a transgenia, monocultivo e uso de agrotóxicos, a estiagem prolongada é outro desafio para a preservação das sementes crioulas. A conhecida erosão genética, por exemplo, é uma situação que coloca em xeque espécies milenares de sementes crioulas.

Panfletagem

Para ecoar as diferenças entre a agricultura familiar agroecológica e o agronegócio, a ASA Paraíba, através da juventude camponesa, realizou uma panfletagem nas ruas de Campina Grande (PB), no último dia 8 de outubro. O ato possibilitou um diálogo com a população sobre as manobras de deputados e senadores que tentam desobrigar a identificação dos alimentos transgênicos das embalagens em supermercados, além de sensibilizar a população para os riscos de uma alimentação inadequada.

“Foi um ato muito importante porque divulgou o que são alimentos transgênicos e quais seus malefícios à saúde humana, ao meio ambiente e à soberania alimentar e nutricional, com consequente visibilidade à alimentação agroecológica e como alternativa ao modelo de desenvolvimento da agricultura”, lembrou a integrante da Rede de Sementes, Madalena Medeiros.

A panfletagem aconteceu como um ato de preparação para a Festa Estadual das Sementes da Paixão, realizada há seis anos na Paraíba. O evento, que valoriza e fortalece a prática dos guardiões e guardiães das sementes crioulas, começa hoje (14) e se estende até sexta-feira que vem (16). O tema desta edição “Agricultura Familiar guardiã da sociobiodiversidade, pela soberania alimentar, livre de transgênicos e agrotóxicos”.

Festa das Sementes da Paixão - De hoje até amanhã (15), a programação será realizada em Arara, no Santuário de Padre Ibiapina. No último dia, as atividades ocorrerão em Campina Grande, onde serão realizados três atos públicos.  

Festa das Sementes tem atividades de formação, oficinas temáticas e uma grande feira, onde agricultoras e agricultores poderão trocar experiências, compartilhar sementes e outros produtos da agricultura familiar, participar de uma rádio livre, além de desfrutar de várias atrações culturais.

“A festa é um momento místico onde a gente reforça as nossas energias para lutar contra as ameaças ao nosso projeto, como por exemplo, o agronegócio, e ao mesmo tempo celebrar os guardiões e guardiãs das Sementes da Paixão que são tão importantes para o patrimônio genético e para a humanidade”, avaliou o agricultor Euzébio Cavalcante do Assentamento Queimadas, no município de Remígio.

* Com colaboração de Áurea Olímpia, comunicadora da ASA

 

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