COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

Dom Eugênio Rixen, bispo da Cidade de Goiás (GO), relata os detalhes do ritual de “enterro simbólico” de Dom Tomás Balduino realizado na aldeia dos indígenas Krahô-Canela, no Tocantins. “O povo Krahô fez a promessa de realizar um enterro simbólico em sua aldeia para aquele que se tornou um grande protetor e amigo”, conta. Leia o texto e assista ainda um trecho da cerimônia:

 

De 25 a 28 de setembro de 2014, o padre Daniel Bertuzzi e eu fomos participar do “enterro simbólico” de Dom Tomás Balduino, bispo emérito da Diocese de Goiás, co-fundador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em 1972 e co-fundador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em 1976.

Saímos no dia 26 de setembro de Palmas (TO) às 05h00 numa Van alugada pelo CIMI do Tocantins. Na Van havia indígenas Xerente, Apinagé, Krahô-Canela, agentes do CIMI e amigos/as de Dom Tomás. Chegamos à aldeia dos Krahô por volta das 17h00. Foram quase 500 km de asfalto, de estrada de terra e de barco até o povoado dos Krahô.

Quando chegamos de barco, navegando pelo Rio Vermelho, os indígenas já estavam nos esperando e nos levaram até a aldeia, há um quilômetro do rio. Logo nos serviram o jantar: arroz, mandioca e carne. Havia uma bacia com comida para os homens e outra para as mulheres. Logo depois montamos nossas barracas e fomos tomar um banho no rio para tirar a poeira e o suor da viagem.

Dom Tomás faleceu dia 02 de maio à noite. Nos dias 03 e 04 de maio pela manhã, ele foi velado na paróquia dominicana São Judas Tadeu em Goiânia. Na tarde do dia 04 e no dia 05 de maio, ele foi velado na Catedral da Cidade de Goiás, onde também foi sepultado. Vários povos indígenas participaram de sua despedida. Houve ritos expressando a dor pela perda de um pai e de um grande defensor da causa indígena.

O povo Krahô fez a promessa de realizar um enterro simbólico em sua aldeia para aquele que se tornou um grande protetor e amigo, e insistiu para que o bispo da Diocese de Goiás e sucessor de Dom Tomás também participasse das celebrações. Isso explica por que fomos até a aldeia Krahô.

Muito impressionante foi a troca de presentes na manhã do dia 27 de setembro. Levei uma estola latino-americana que Dom Tomás utilizava, uma cruz com pinturas de cenas da vida quotidiana dos povos andinos, no meio dela havia uma fotografia de Dom Oscar Romero, e algumas lembrança que fizemos por ocasião das missas do 7º dia de sua Páscoa. Gecília, mulher indígena e lutadora, colocou a estola em seus ombros e parecia uma verdadeira sacerdotisa. Os indígenas me presentearam com colares feitos por eles.

Assista aqui um pequeno trecho do ritual de “enterro simbólico” de Dom Tomás Balduino realizado pelo povo Krahô

Durante esta mesma manhã houve também muitos discursos onde os indígenas puderam expressar suas preocupações.

Um dos grandes problemas é a preservação da terra. O povo Krahô tem suas terras demarcadas desde os anos 1970. Existem na reserva, de aproximadamente 30.000 ha, 28 aldeias com uma população de mais ou menos 3 mil indígenas. No entanto, estas terras estão ameaçadas pelo agronegócio, principalmente pelo plantio de soja e do eucalipto. A reserva é cercada por este tipo de agricultura que utiliza muitos agrotóxicos e destrói completamente o Cerrado. Consequência disso é a poluição dos rios e o desaparecimento da fauna. O peixe e a fauna eram a base da alimentação do povo Krahô. A candidata ao senado pelo Tocantins, Kátia Abreu, símbolo do agronegócio, teria falado: “os índios são um atraso para o desenvolvimento do Brasil”. Esta candidata entende por desenvolvimento a produção de grãos para exportação para conseguir comodities no mercado internacional. Para os indígenas, o pensamento é diferente, a terra é a nossa mãe e a água é o nosso pai. São seres vivos que merecem nosso respeito e o nosso cuidado. Certamente, são os povos indígenas que mais preservam a natureza e cuidam do meio ambiente. O agronegócio destrói tudo pela cobiça do dinheiro para alguns e a miséria de muitos.

Os Krahô também se queixam da precariedade das estradas que dão acesso às aldeias, da falta de atendimento à saúde, das dificuldades de ir à escola por falta de transporte. Da parte das autoridades públicas há uma grande indiferença para com os problemas dos povos indígenas!

O CIMI é praticamente a única esperança para o povo Krahô. A presença dos seus agentes no meio dos povos indígenas é muito importante.

O povo Krahô fez o luto de Dom Tomás durante quatro noites, cantando hinos à criação na sua própria língua. Eram “mantras” harmoniosos que a noite toda quebravam o silêncio numa melodia tão orante que o próprio Tomás “se fazia presente”. Sob o céu estrelado, ele estava o meio de nós!

No sábado à tarde houve a corrida da tora dos homens e depois das mulheres. No domingo de manhã, os Krahô enfeitaram uma tora que ficou há alguns quilômetros da aldeia. Os homens a trouxeram para o centro da aldeia. Houve novas corridas com várias toras. Duas delas foram entregues ao CIMI, uma para ser repassada à Diocese de Goiás, numa celebração a ser marcada. E assim o luto acabou, e todos ficaram alegres com a certeza que Dom Tomás, grande defensor dos povos indígenas, continua presente no meio deles. Recebi dos indígenas a responsabilidade de continuar a missão do grande profeta que foi o bispo emérito de Goiás, apoiando a causa indígena.

 

Dom Eugênio Rixen

Bispo da Cidade de Goiás (GO)

 

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