COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Na manhã de hoje (23), o Fórum Ambiental, realizado de 20 a 25 de junho durante o 19º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), abriu sua programação do dia com a mesa “Os grandes empreendimentos e a questão ambiental: impactos no campo e na cidade”, e discutiu as consequências para a população do campo e da cidade dos chamados grandes projetos de desenvolvimento.

 

(Cristiane Passos e Elvis Marques – Setor de Comunicação da Secretaria Nacional da CPT / fotos e vídeo Thomas Bauer – CPT Bahia)

Joka Madruga, repórter fotográfico e diretor de imagens do Sindicato de Jornalistas do Paraná, e do site de jornalismo independente Terra Sem Males, exibiu as imagens de grandes empreendimentos e do rastro de destruição ambiental, social e cultural que eles deixam pelo caminho. “Quero mostrar aqui minhas experiências ao ver pessoas que são impactadas diretamente pelos grandes empreendimentos, em nome de um progresso, em nome do capitalismo, para gerar lucro, riquezas, e não em benefício do povo”.

Com o Projeto “Águas para a Vida”, Joka retratou os atingidos por barragens na Amazônia, a partir da perspectiva de desrespeito dos direitos dessas comunidades e da destinação dessa energia, produto final desses grandes projetos. “Um dos grandes problemas é a violação dos direitos humanos nas barragens, tanto na construção quanto no trabalho diário dessas empresas e nas comunidades. Na mineração é da mesma forma”.

“As hidrelétricas vieram para Rondônia e acabaram com a gente”, já dizia Nicinha, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em Rondônia. Nicinha foi assassinada por sua luta contra a construção da hidrelétrica de Jirau, apesar da polícia insistir em que sua morte teria sido motivada por desavenças com vizinhos. “Nicinha fez várias denúncias em relação a usina de Jirau. Principalmente em relação à indenizações, pois as grandes empresas chegam, fazem os estudos socioambientais, muitos são forjados para que possam gerar lucros, e os cálculos de indenização das comunidades que são desalojadas sempre acabam por prejudicar essas pessoas. A luta dessas pessoas é justamente ter uma indenização justa, para continuarem suas vidas”, relatou o fotógrafo.

O processo de construção das usinas hidrelétricas leva muitos trabalhadores migrantes para trabalhar na obra, justamente para que eles não articulem um processo de resistência, já que trabalhadores locais, por terem uma relação com a área impactada, podem resistir à construção do empreendimento. Além de também resistirem aos desrespeitos trabalhistas que comumente acontecem nessas atividades, conforme denunciou Joka.

“Outro problema com a construção das hidrelétricas é o impacto no meio ambiente. A cheia do lago de Jirau, por exemplo, ultrapassou a base das árvores, que acabaram apodrecendo e poluindo o rio, provocando inclusive a morte de peixes, e impactando diretamente os pescadores e ribeirinhos. O cacique Raoni, do povo Kayapó, disse que a copa dessas árvores, que acabaram ficando branquinhas por conta do apodrecimento, são o cabelo branco da Amazônia, é onde a Amazônia está envelhecendo e ficando doente”, relatou o fotógrafo.

Nicinha é um dos símbolos da resistência à violência contra a mulher na luta contra as barragens. Há várias denúncias em relação a isso no local. Conforme Joka, “há um alto índice de prostituição e uso de drogas nesses locais, e um alto índice de estupros diante da quantidade de peões que se reúnem em torno da obra, e que, no único dia de folga, passeiam na cidade e acabam cometendo esses crimes. Além das mulheres locais, as mulheres dos peões também acabam sofrendo por conta desse processo. É uma violência muito grande que a gente não absorve, não é uma agressão física, mas é uma violência contra o ser humano”.

Pará

No Pará, no caso da usina de Belo Monte, também ocorreram muitas irregularidades e desrespeito às comunidades. As famílias ficaram sem saber para onde ir, pois havia uma demanda de sete mil casas para abrigar todos os desalojados e até 2015 apenas quatro mil casas haviam sido construídas, outras três mil famílias ficaram sem saber para onde ir. “Em Belo Monte, mesmo sendo as principais vítimas da violência, as mulheres sempre estavam à frente do processo de resistência”, destacou.

“A cidade de Altamira viu sua população aumentar de 89 mil habitantes para 140 mil. A estrutura do serviço público não suporta. Saiu um estudo esse ano de que Altamira é a cidade mais violenta do Brasil. Além disso, as comunidades não tinham direito de escolher para onde ir, a Aneel Energia que dizia onde eles iriam ficar. E aí eu pergunto, essa energia é produzida para quem? Para as grandes empresas, que trabalham com petróleo, metalúrgicas... o nosso consumo, a minha geladeira, a sua televisão, é o que menos consome. A violação que essas pessoas estão sofrendo é para gerar lucro para essas grandes empresas. E quem são os atingidos pelos grandes empreendimentos? São só as pessoas locais? Não. Em Mariana (MG) sempre conversávamos com as pessoas que vítimas do crime da Samarco, de que nós todos somos atingidos. Nós perdemos, por exemplo, um patrimônio cultural, uma igreja em Bento Rodrigues que era tombada, era patrimônio cultural, e foi destruída. Eu e muita gente nunca mais vamos ver isso”, analisou o fotógrafo.

“Os peixes na região de Belo monte, próximo à volta grande do Xingu, já não existem mais, foram espantados. Além disso, nas proximidades dessa região a mineradora Belo Sun está explorando uma mina de ouro que tem minério para ser explorado durante 100 anos. Um estudo do Instituto de Biofísica da UFRJ comprova que em alguns pontos próximos à bacia do Rio Doce está com o lençol freático contaminado. Foram três rios que foram atingidos, o rio Gualache, chegou no rio do Carmo e desembocou no rio Doce, que é uma junção de dois rios, o rio do Carmo e rio Piranga”, relatou Joka.

“O grande Watu está morto, disseram os indígenas. Watu é o rio Doce para os Krenak. Eles mesmo falam que ele está morto e a aldeia ficou triste. Eu vi famílias cozinhando, um ano depois do rompimento da barragem de rejeitos, com água contaminada do rio, pois a Samarco não fornecia mais água potável para eles”. Emocionado, Joka contou a história de uma mulher que, grávida, perdeu seu bebê e ainda uma sobrinha. “Ela me disse que quando a lama desceu, ela estava em casa com o filho e uma sobrinha, ela pegou os dois nos braços, mas quando a lama veio derrubou o muro em cima dela e as crianças escaparam no mar de lama. O filho sobreviveu, mas a sobrinha não. Ela disse que enquanto era levada pela lama, ela sentiu perder seu bebê e sentiu o feto descer pelas suas pernas”.

O veneno está na mesa, no ar e em todo lugar

Fernando Cabaleiro, da organização argentina Naturaleza de Derechos, trouxe dados comparativos da produção de transgênico e o uso de agrotóxicos no país. Em 1996 foi lançada a primeira soja transgênica na Argentina, em 2000 aumentou para cinco tipos diferentes de soja transgênica, e em 2015, mais da metade da produção do grão no país era transgênico, de 35 tipos diferentes. A quantidade de agrotóxicos utilizada que era, nos anos 1990, de 40 milhões de litros por ano, saltou para mais de 400 milhões de litros por ano. “No Brasil, são consumidos cerca de sete litros de agrotóxicos por pessoa ao ano, na Argetina, são 10”, completou.

“Existe muita pulverização próximo às comunidades, poluindo elas, a terra e as águas. Muitas escolas rurais, no meio do campo, ficam expostas às fumigações. Em amostras de frutas como pera e limão, mais de 90% apresentaram agrotóxicos, assim como vários outros produtos. E presença de agrotóxicos de classificação toxicológica alta. Muitos desses produtos são sistêmicos, divulgam que lavando as frutas e verduras os agrotóxicos saem, mas não saem totalmente, só em parte, pois são produtos sistêmicos e absorvidos pelos alimentos”, relatou ele.

“Somos realistas, sabemos que o poder judicial é conservador, está diretamente relacionado com o poder político, que é dependente do poder econômico, e isso tudo dificulta esse processo de legislar contra o uso de venenos, mas temos que insistir e seguir tentando denunciar judicialmente os casos”, ressaltou Fernando.

Segundo ele, algumas comunidades argentinas começaram a perceber que haviam muitas crianças com câncer ou enfermidades sérias, e passaram a investigar a relação disso com as constantes fumigações nas proximidades, a partir daí teve início a luta dessas comunidades contra a fumigação de venenos. “A organização popular é fundamental. No caso de Córdoba, foi isso que conseguiu barrar a instalação da Monsanto na cidade e a lei de agrotóxicos vinda de Buenos Aires, assim como leis municipais que facilitavam o uso de agrotóxicos”, completou.

Para Moema Miranda, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), “todos esses problemas fazem parte de um mesmo desenho, aqui, na Argentina, no Uruguai, e em outros lugares. Vivemos o período do antropoceno. Estamos numa fase em que os seres humanos afetam o planeta em toda a sua estrutura. Os seres humanos são a única espécie que ocupam o planeta de norte a sul, de leste a oeste. O único ser que consegue se adaptar e vai ocupando espaço é o ser humano. Mas nós ocupamos tudo isso com um único modelo econômico, o capitalismo, na verdade não é a único, mas é a forma predominante de domínio da economia. No centro está o capital. Estamos vivendo um processo de aceleração. A própria natureza não aguenta mais esse modelo destruidor”.

Segundo ela, “62 pessoas no mundo tem a mesma quantidade de dinheiro que 3,6 bilhões de indivíduos mais pobres no mundo. O que afeta e o que destroi é distribuído para toda a sociedade, mas a riqueza gerada a partir disso é concentrada. Uma grande rede de varejo se concentra em poucas empresas. Outra forma de concentração que vem junto é a concentração da mídia. Algumas empresas também concentram o aparato da mídia, é um número pequeno de empresas e concentrado. Essa produção de informação vai vendendo uma história semelhante em todos os lugares”.

Moema também ressaltou os erros da esquerda. “Nos últimos anos tivemos vários governos democráticos e populares na América Latina, mas nós nos perguntamos se esses governos enfrentaram essas grandes empresas do agronegócio e da mídia por exemplo. Não. Muitas vezes a esquerda também achou que a natureza era somente um recurso natural. Faz diferença pegar isso e distribuir ao invés de acumular na mão de um capitalista somente, mas em termos de destruição e rastros para o futuro, não faz diferença nenhuma. A nossa sociedade está levando à destruição do planeta, dizemos que nossa sociedade é ecocida. Ela está matando a casa onde ela mora. Mas uma sociedade ecocida também é suicida, vemos o aumento dos suicídios em várias partes do mundo. Principalmente entre jovens. É uma sociedade que não vê futuro, não vê sentido na sua vida”, finalizou a pesquisadora.

#NãoFoiAcidente

“Não foi acidente, é a lama que mata” é o nome da exposição fotográfica que pode ser conferida ao longo do FICA na II Tenda Multiétnica – Povos do Cerrado, localizada na Praça do Chafariz. Estão expostas no local 36 imagens capturadas pelas lentes do repórter fotográfico Joka Madruga.

“As imagens mostram o drama das vítimas do maior crime ambiental do Brasil, que aconteceu na Bacia do Rio Doce em novembro de 2015, quando uma barragem de resíduos da Mineradora Samarco SA, empresa da Vale e BHP Billiton, rompeu em Mariana, em Minas Gerais, matando mais de uma dezena de pessoas e causando enormes prejuízos ao meio ambiente e à população local”, explica o fotógrafo, que esteve na região a convite do MAB dias após esse grave crime.

Depois, ao completar um ano do crime da Samarco, Joka e Thomas Bauer, agente da Comissão Pastoral da Terra na Bahia (CPT-BA), percorreram o rastro da lama ao longo da Bacia do Rio Doce, passando por vários municípios de Minas Gerais e Espírito Santo. Começava assim o projeto documental intitulado “Lama que mata”. Por 20 dias, os dois ouviram as histórias de pessoas impactadas pelo rompimento da barragem e enxergaram a vida dos moradores e moradoras ainda arrasada pela lama.

Está planejada uma segunda viagem até a região, quando será um momento de “devolver” o material produzido para os moradores e personagens do documentário. Será feito o mesmo trajeto e uma exposição fotográfica será montada em cada comunidade retratada, onde também serão feitas projeções do vídeo documentário em praça pública.

Joka Madruga fala sobre sua exposição. Confira o vídeo:

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