COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

Para este ano a comunidade estima colher mais de 40 toneladas de melancia e cerca de 38 toneladas de mandioca, para fazer farinha artesanal e goma, além de alcançar a produção de quase mil litros de azeite de coco babaçu. São 24 famílias que resistem à situação de conflito com empresa do Rio de Janeiro

(Texto e vídeo: CPT - Maranhão / Arte: Mário Manzi - Secretaria de Comunicação CPT Nacional)

Confira a segunda parte da série dividida em dois capítulos:

Leia a primeira parte AQUI.

A presença da empresa Costa Pinto no Maranhão sempre foi conflitiva com as comunidades tradicionais na região onde atua. Parte dessa história é contada por Luís, 43 anos.

“Nossa família morou 5 anos na Pitombeira e saiu de lá expulsa. De lá pra cá a gente continuou essa luta pra gente trabalhar e viver e fomos adotados, acolhidos pela comunidade que ajudou a gente, daí estamos aqui algum tempo porque a gente precisa dessa terra pra trabalhar, poder plantar, sobreviver, sabe? Sem essa terra a gente perde muita coisa, a gente precisa plantar, praticamente nós sabemos fazer é isso: plantamos feijão, arroz, manaíba, o maxixe e a melancia e mais outros alimentos para a nossa sobrevivência. Depois que fomos expulsos da Pitombeira, ficamos um ano sem chão. Corria pra um lado, corria pro outro, e eu lembro que pedia a Deus que nos desse uma terra para trabalhar, foi quando a gente recebeu o convite da comunidade e a CPT nos apoiou e viemos pra cá. Quando dá hoje estamos sofrendo essas ameaças sem poder plantar mais. Ela [Empresa Costa Pinto] está sempre tentando parar nossa produção, mas nós temos que continuar, sempre resistir porque a gente precisa dessa convivência com a terra e porque a gente precisa manter nossa família. Em 2005 a Costa Pinto tirou muitas famílias da Pitombeira e botou na periferia e nós não fomos pra lá... Nós vamos resistir até o fim, com fé em Deus e Nossa Senhora”. Luís Rodrigues

Atualmente, Pati/Gostoso tornou-se o principal produtor de alimentos agrícolas no município de Aldeias Altas, apesar de ser uma comunidade pequena. Ao longo dos anos os camponeses e camponesas da comunidade foram acumulando conhecimentos e desenvolvendo novas técnicas de produção e hoje produzem alimentos saudáveis livres de agrotóxicos e adubos químicos. Nenhuma média ou grande empresa agrícola produz em quantidades como é produzida por essas famílias sem que usem adubos químicos e inseticidas, contaminando os alimentos e causando os mais diversos tipos de doenças.

Para o ano de 2020, em uma contagem prévia, a comunidade estima colher mais de 40 toneladas de melancia e cerca de 38 toneladas de mandioca para fazer farinha artesanal e goma. Informaram que chegam a produzir cerca de 900 litros de azeite de coco babaçu, aproveitando o que a natureza dispõe e produzem óleo de forma artesanal e da casca do coco aproveitam para fazer o carvão usado em casa. Por reconhecer tamanho valor das palmeiras, as pessoas da comunidade se articulam para apagar o fogo quando ameaça adentrar no território, ocorrências muito comuns no período de estiagem. Em uma rápida visita às roças e aos paióis de alimentos, é possível perceber o grau de autonomia alimentar que a comunidade possui nesse período. Informaram que entre arroz, feijão, milho e verduras é possível que chegue neste ano de 2020 a mais de 9 toneladas, o suficiente para garantir por um bom tempo a alimentação de todos/as e ainda contribuir com o mercado local, pois vários produtos são perecíveis.

Para garantir os nutrientes que o solo precisa para uma boa produção e reduzir os impactos ao meio ambiente, a comunidade cultiva arroz, milho, mandioca, vinagreira, maxixe, quiabo, feijão, fava, gergelim, batata doce, entre outros, em sistema de cultivo consorciado, evitando a proliferação de insetos, a erosão do solo. A variedade de alimentos cultivada é usada para atender as necessidades das famílias e o excedente é comercializado, contribuindo com o comércio local, tornando Aldeias Altas menos dependente das grandes empresas agrícolas que produzem no vale do São Francisco, Pernambuco e Bahia ou em Tianguá – Ceará e Apodi – Rio Grande do Norte. Um processo que todos os municípios maranhenses poderiam desenvolver por disporem de tantas terras boas para o cultivo e chuvas abundantes.

Entre essas 24 famílias ameaçadas, 6 acessam o Crediamigo e 2 famílias, o Agroamigo, ambos recursos públicos disponíveis pelo Banco do Nordeste. Outras 6 famílias já receberam apoio da Rede Mandioca, um projeto executado pela Cáritas Brasileira – Regional Maranhão com apoio da Fundação Interamericana para o desenvolvimento sustentável de comunidades.

A produção agrícola na comunidade é de base familiar e não tem apoio da secretaria municipal de agricultura, quando teve, segundo os camponeses/as precisaram se humilhar. Atualmente, celebram o fato de terem conseguido dar continuidade sem esse apoio porque entendem que quanto mais autonomia e independência tiverem, conseguem ter maior liberdade política e econômica.

As políticas públicas no interior do estado quase sempre são aplicadas como troca de favor político. Em Aldeias Altas, o poder da Costa Pinto permeia por dentro da estrutura administrativa e exerce grande influência sobre todos os órgãos públicos municipais e estadual como tem sido o caso da polícia militar local quando foi à comunidade em novembro de 2017 e prendeu 22 pessoas, trabalhadoras e trabalhadores, por tentarem impedir a ação de um trator que fazia um variante que cortava o território ao meio. Segundo a comunidade, foi necessário agir para proteger o território.

Há uma capela que tem como padroeiro São Raimundo Nonato, um catalão que teve sua vida ligada à história de libertação de 150 cristãos escravizados na Argélia por mulçumanos no século XIII. Há também uma escola, que funciona com uma sala de aula no modo multisseriado com 18 alunos/as que vai desde a pré-escola ao 5º ano do ensino fundamental. Essa escola que tantas vezes foi ameaçada de fechar talvez represente também a esperança de libertação para uma comunidade onde a maioria não sabe ler e escrever.

“Eu tenho 39 anos e tenho 5 filhos, o que eu sei é trabalhar de roça, a nossa profissão é essa. Eu sou uma pessoa que nunca estudei, mas a gente vive aqui é da roça, de plantar arroz, melancia, feijão... então é daqui que nós vive e daqui nós não sai não, é um direito que nós tem... Quase todo dia eu oro pra Deus, peço a Deus pra que a gente consiga essa terra sem conflito nenhum. A Costa Pinto ameaça a gente aqui dizendo pra não plantar”.  Adão Rodrigues

As falas de Edite, Luís e Adão, soam como clamor a Deus e súplica às autoridades para que percebam e para que os vejam como gente, como humanos. É um grito desesperador que soa e quer chegar ao lugar mais distante para que suas preces e desejos sejam ouvidos. Nessas falas carregadas de coragem e teimosia há uma profunda relação de amor com a terra, com a Mãe Terra, a Grande Casa Comum. Há um cuidado para não contaminar com veneno o solo que suas crianças brincam e nem a água que bebem todos os dias.

Resposta

A assessoria jurídica que atende a comunidade recorreu, por meio de agravo interno, da decisão do Desembargador Ricardo Dualibe que denegou a suspensão da reintegração de posse.

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