COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

Resposta insuficiente de governos à pandemia passa pela falta de apoio aos povos do campo, principais responsáveis pelos alimentos que chegam à mesa da população em quarentena. Confira situação pelo mundo.

Fonte: Via Campesina / Tradução: André Takahashi / De Olho Nos Ruralistas

Imagem principal: De Olho Nos Ruralistas

Na medida que o vírus do Coronavírus se espalha pelos países e continentes, vários membros da Via Campesina emitiram declarações destacando a situação precária dos camponeses e trabalhadores migrantes em todo o mundo.

Aqui está uma compilação de diferentes declarações emitidas pelos membros da Via Campesina:

EUA: VÍRUS ATINGE PRODUTORES MIGRANTES

A atual crise pandêmica é uma ameaça real para toda a população. Não podemos fechar os olhos para as mortes, contágios, fechamento de quarentena, distanciamento social, escassez de produtos básicos nas casas, especulação e acumulação de alimentos, fechamento de escolas, toque de recolher, resposta insuficiente de governos e autoridades de saúde, a indiferença em relação às condições prementes das pessoas e comunidades mais marginalizadas, bem como o aumento da precariedade e desigualdade, não são aceitáveis. Estamos atolados em uma crise da vida que afeta a todos nós.

Entretanto, existem setores da população que estão em uma situação mais frágil e que são mais afetados pela ameaça do contágio do Covid-19 do que todas e todos. Esse setor é composto por migrantes pobres e desprotegidos que não apenas não têm acesso a programas de saúde e serviços médicos devido à falta de dinheiro ou seguro básico de saúde, mas também podem espalhar a infecção para suas famílias e comunidades rurais porque vivem em medo e por que eles não recebem tratamento ou não procuram tratamento se ficarem doentes nos Estados Unidos.

Como se a ameaça de adoecer e talvez morrer com o coronavírus não fosse suficiente, a crise também exacerbou o sistema de segurança nacional com seus impactos de maior perseguição policial, mais autoritarismo e mais militarismo contra as comunidades de imigrantes e fronteiras. O Estado, que deveria proporcionar segurança e tranquilidade ao povo, promoveu divisões sociais e uma atmosfera de medo ao executar uma estratégia de guerra para enfrentar a atual crise. Em vez de uma mobilização pública urgente para enfrentar a crise de Covid-19, o Estado aproveitou a desgraça humanitária para exercer um controle mais autoritário sobre a população, uma maior restrição de direitos humanos, o endurecimento das políticas anti-migrantes, um domínio rigoroso de corte paramilitar das fronteiras e a contenção do livre movimento de pessoas.

Confira a declaração completa

FRANÇA: ‘MINIMIZE PERDAS, AUMENTE A SOLIDARIEDADE’

A crise do coronavírus está entrando em sua fase aguda. Teremos de responder a ela coletivamente. É essencial que os poderes públicos façam todo o possível para garantir a segurança alimentar do país, reconhecendo a importância primordial dos agricultores de nossos territórios.

Esperamos, portanto, que o governo estabeleça medidas de proteção prioritárias para que os agricultores e todos os envolvidos na produção de alimentos possam continuar seu trabalho. Isso inclui medidas de assistência à infância, garantindo a segurança dos responsáveis.

Também é importante que seja realizado um censo de toda a produção e dos produtores cujos pontos de venda foram e serão afetados pela desaceleração econômica, pelas dificuldades de exportação, pela interrupção do fornecimento de refeições fora de casa e nas cantinas das escolas etc. Este censo deve permitir, em primeiro lugar, levar em consideração e compensar todas as perdas de produção e, em segundo lugar, ajudar a redirecionar rapidamente para novos pontos de venda que respondam às necessidades do território de acordo com um princípio de solidariedade que garanta aos agricultores uma remuneração justa, evitando especulações.

Veja a declaração disponível em francês

PALESTINOS TEMEM PERDAS PARA OS PEQUENOS

Na Palestina, o Comitê do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas (UAWC) mobilizou seus membros e equipes técnicas para combater o surto do vírus. Muitos casos foram relatados, principalmente em Belém. O comitê teme que, à medida que o vírus se espalhe para mais regiões, desative a vida pública e cause perdas catastróficas para os pequenos produtores de alimentos. O Comitê desenvolveu um plano de ação de emergência em consonância com a declaração de emergência nacional do governo.

Acesse a declaração em inglês

Na Indonésia, a Serikat Petani Indonesia (SPI) exortou o governo a antecipar o impacto do vírus Covid-19 no setor de alimentos e a tomar medidas imediatas para lidar com a crise. O governo indonésio havia anunciado anteriormente que usaria os recursos destinados ao desenvolvimento de infraestrutura para lidar com o vírus. O SPI insistiu que o direcionamento de fundos também deveria incluir o fortalecimento de sistemas alimentares que não dependem do mercado mundial de alimentos. O SPI alertou que o sistema alimentar do país se tornará mais frágil se depender da distribuição global ou de cadeias de suprimentos voltadas para os interesses do mercado e vulneráveis ​​à especulação.

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ITÁLIA: CAMPESINATO COMO ESPINHA DORSAL DA ECONOMIA

Na Itália, a Associazione Rurale Italiana (ARI) está comprometida em garantir que os italianos tenham acesso a alimentos locais de qualidade, mesmo nesta situação de emergência. Em comunicado divulgado em 19 de março, o movimento lembrou ao governo que “quando isso terminar, não serão as ‘injeções de liquidez’ que determinarão a recuperação, mas a capacidade, a vontade, a resistência e a autonomia produtiva de camponeses, artesãos, pequenas e médias empresas que operam localmente, a verdadeira espinha dorsal da economia nacional”. “Só se eles não forem definitivamente aniquilados nesse meio tempo”.

A ARI também levantou várias demandas ao governo, incluindo a compra de alimentos e produtos agrícolas para consumo fresco nas fazendas; manter aberto e reorganizar os mercados de comida de rua, com as medidas necessárias em termos de entradas e cotas controladas; exercer controle efetivo sobre os preços pagos aos produtores e os preços ao consumidor de alimentos e produtos agrícolas; expandir o apoio a trabalhadores sazonais e migrantes; liquidar pagamentos vencidos; apoiar a dívida contraída por pequenas empresas e pequenas e médias fazendas; importância de manter abertos os mercados dos agricultores rurais, garantindo assim o acesso da população aos alimentos.

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Os camponeses e camponesas da Eco Rurales, na Romênia, têm trabalhado sob pressão de emergência nas últimas duas semanas e distribuído sementes de hortaliças para a temporada de sementes da primavera. As sementes atingiram mais de 3 mil famílias na Romênia e na República da Moldávia. “Em tempos de crise como este, precisamos mudar os sistemas alimentares. É evidente que o mercado mundial e os supermercados estão falhando em condições de crise. O sistema alimentar camponês é a solução para garantir o direito à alimentação”.

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CANADÁ: SINDICATO PEDE APOIO A AGRICULTORES LOCAIS

No Canadá, o National Farmers Union observou que os mercados agrícolas são um componente essencial dos sistemas alimentares locais e da soberania alimentar. No entanto, com o fechamento de negócios não essenciais em todo o país, muitos mercados de agricultores são forçados a fechar devido a medidas emergenciais tomadas para reduzir a propagação do Covid-19. Essa ação não apenas cria um dano econômico para os agricultores locais, mas também reduz o acesso do público a alimentos seguros e saudáveis.

“Convidamos os governos de todo o Canadá a declararem que os mercados de agricultores são um serviço essencial, e a trabalhar com os mercados para garantir sua operação segura e capacidade de suprimento de alimentos durante a crise da pandemia. Também apelamos aos restaurantes para apoiar seus agricultores locais e outras empresas locais durante este período difícil e incerto”, afirmou a União Liberação NFU.

Confira aqui a declaração sobre o Canadá

No Reino Unido, a Aliança dos Trabalhadores da Terra pediu medidas de emergência e reiterou que essa crise “destaca a vulnerabilidade do nosso sistema alimentar globalizado, que nos próximos anos só piorará se não investirmos na construção de um sistema alimentar local resiliente e diversificado”. “Para garantir nosso suprimento de alimentos, precisamos de ações governamentais de emergência para garantir que tenhamos as colheitas necessárias no local e que tudo seja coletado e distribuído com segurança, para que todos possam ter acesso a alimentos saudáveis ​​e acessíveis. É essencial que os agricultores obtenham a ajuda necessária para sobreviver a esta crise. Precisamos de nossas fazendas locais para nossa própria sobrevivência, não vamos perdê-las quando mais precisamos delas”.

Leia a declaração completa sobre o Reino Unido

Em Portugal, a Confederação Nacional Agrária entregou carta aberta à Presidência, à Assembleia Nacional e ao primeiro-ministro em defesa da agricultura familiar. Ela chama atenção para a situação que vive o campesinato no país diante do coronavírus e da declaração de um estado de emergência.

AMÉRICA LATINA: GOVERNO PRECISA VALORIZAR POVOS DO CAMPO

No Peru, o campesinato mostra que seu trabalho é vital para sustentar nosso país, especialmente em tempos de crise. É que “sem comida, o mundo não existe”. Isso foi destacado pela Confederação Agrária Nacional (CNA).

A esse respeito, Antolín Huáscar, presidente da CNA, disse que “o esforço das mulheres e dos homens rurais é vital, mas infelizmente pouco ou nada valorizado pelo governo”. “É essencial que tenhamos um importante tecido agrícola e pecuário em nossa sociedade que nos permita enfrentar com maior resiliência a qualquer crise, incluindo a crise pela qual estamos passando agora”.

Observe aqui as informaçõe sobre o Peru

No Brasil, João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), compartilhou algumas análises e diretrizes sobre o coronavírus para sua militância. Chamou a cobrar dos governos políticas públicas para o fortalecimento da agricultura familiar camponesa, uma vez que uma das coisas que piorará no mundo após essa crise é a escassez de alimentos e quem terá de garantir o suprimento será o campesinato.

Assista ao vídeo com o coordenador nacional do MST

Na Argentina, o Movimento Nacional dos Camponeses Indígenas pediu para ficar em casa, enquanto o campesinato tem a tarefa de garantir comida para as cidades com produção saudável e suficiente. Além disso, os camponeses se colocaram à disposição do Estado para garantir alimentos em caso de escassez e enfatizaram que manteriam os preços.

Desde o dia 13 de março, a Venezuela entrou em alerta geral, assim que o presidente Nicolás Maduro anunciou, entre outras medidas, em cadeia de rádio e televisão, o início de uma quarentena social e coletiva em sete estados do país a partir do dia 16. A pandemia do Covid-19 chega em um contexto de um grave bloqueio, com as capacidades de atuação do Estado severamente diminuídas pelo efeito das medidas coercitivas ilegais dos Estados Unidos, que implicam bilhões de dólares sequestrados pelo sistema financeiro mundial, enormes dificuldades para adquirir remédios, alimentos, equipamentos e insumos de todo tipo no mercado internacional, colocando em alerta não somente o campo, mas também as cidades.

A Frente Nacional Campesino Ezequiel Zamora (FNCEZ) compartilhou algumas iniciativas que os camponeses estão realizando em seus territórios, onde as pessoas demonstram níveis de organização e consciência que permitem ao país ser exemplo para o mundo, com solidariedade e organização.

A Organización Boricuá de Agricultura Ecológica de Porto Rico realizou o Fórum Virtual “Coronavirus en Puerto Rico, orientación y análisis”, que contou com a participação de uma trabalhadora migrante e de uma epidemióloga, para ampliar as reflexões sobre os impactos na classe trabalhadora.

Em conjunto com a equipe da Saúde Pública, a Asociación de Agricultores Pequeños, a #Anap de Cuba organiza audiências sanitárias entre cooperativas e comunidades para informar e preparar os trabalhadores em relação às medidas de proteção pessoal, familiar e trabalhista contra o novo coronavírus. Essas ações se realizam no marco do Plano Nacional de Saúde, com ênfase prioritária nas medidas preventivas para evitar a propagação da doença.

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