COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

No segundo dia do Encontro de Povos e Comunidades do Cerrado, quinta-feira, 28, realizado em Balsas, no Maranhão, a atividade “Partilhando Vida e Resistência no Cerrado” foi o palco de apresentações de experiências de luta vindas dos nove estados que abrigam o bioma. O ambiente foi propício para propostas e estratégias de atuação e, dentre elas, a Agroecologia, abordada na “Fonte Rio Tocantins” – um dos espaços de discussão do evento.

 

(Coletivo de Comunicação do Cerrado | Imagem: Thomas Bauer / CPT Bahia)

 “Eu creio na semente, lançada na terra, na vida da gente. Eu creio no amor [...]”, a canção do Padre Coppi, considerada um hino da agroecologia, foi entonada em coro pelos participantes, marcando adequadamente a apresentação de três experiências: a experiência de Mulheres e Agroecologia de Goiás, as Festas das Trocas de Sementes Crioulas, Plantas Medicinais e Frutíferas de Mato Grosso e a Luta e Resistência dos Sertanejos no Cerrado, do Maranhão.

A atividade começou com uma breve contextualização sobre o Rio Tocantins, o segundo maior rio exclusivamente brasileiro, que nasce em Goiás e atravessa os estados de Tocantins e do Pará antes de desembocar na costa maranhense. Como acontece com quase todos os grandes rios do país, o Tocantins é assolado pelos impactos do agronegócio e, principalmente, pela política da matriz energética brasileira. Atualmente, existem 14 hidrelétricas em atividade ou sendo construídas ao longo do rio, mas a maior ameaça que paira sobre o mesmo é o projeto da Usina Serra Quebrada que, se for construída, inundará 14% da Terra Indígena Apinajé, além de impactar a vida de todos os povos e comunidades que dependem dessas águas.

Nesse contexto, as experiências apresentam uma alternativa de resistência frente a um sistema opressor e injusto, começando pelo Grupo de Mulheres do Projeto de Assentamento P.A. Dom Fernando, situado no município de Itaberaí (GO), que se orgulha em ser um exemplo da alternativa agroecológica, como explicou Maria Lúcia Sena da Silva. "Nossa região está ocupada pelo agronegócio, com pecuária e os cultivos de soja, cana, sorgo, eucalipto e, principalmente, laranja. Com isso, a grande utilização de agrotóxicos envenena nossas terras e a população. Por essa razão a luta pela terra foi muito difícil, mas mesmo assim conseguimos adotar as práticas agroecológicas", conta. Com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Grupo de Mulheres conseguiu realizar diversas atividades de capacitação e até elaborar um projeto de escola de agroecologia. "Não foi fácil, mas recentemente conseguimos reunir várias pessoas para aprender apicultura e hoje já produzimos bastante mel, uma renda que nos permite completar nosso salário", afirmou Maria.

De Mato Grosso, foram apresentadas as Festas das Trocas de Sementes Crioulas e plantas medicinais e frutíferas, que valorizam justamente a semente crioula como um dos principais símbolos da Agroecologia. "Resgatar as sementes crioulas não se reduz ao grão, é todo um legado cultural e tradicional que quase foi destruído pela chamada 'Revolução Verde', que justificou e empoderou o agronegócio", relembrou Neri Mialho, do Fórum Rotativo Solidário do município de Jangada.

Foi justamente com o objetivo de recuperar e valorizar esses saberes, que foi realizada, também com o apoio da CPT, a primeira Festa da Troca de Sementes no município, experiência anual replicada anos depois no município de Nossa Senhora do Livramento, lar de Miguelina de Oliveira de Campos, agricultora familiar e agente voluntária da Pastoral. "Além dos conhecimentos e histórias ao redor das sementes e mudas crioulas, elas têm propriedades medicinais muito importantes, assim temos nossa própria farmácia na roça. Com tudo isso, as Festas são realmente um momento de alegria, aprendizagem, e principalmente solidariedade, por isso fazemos troca e não venda", enfatizou ela.

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Neri concluiu explicando que existe também o Banco de Intercâmbio de Sementes (BIS), ferramenta construída pelo Grupo de Intercâmbio em Agroecologia (Gias), uma rede de cooperativas, organizações e movimentos sociais, que é referência em Agroecologia em Mato Grosso. No Banco estão repertoriadas mais de 300 variedades de sementes, com suas propriedades, características e origens.

A experiência Sertanejos na Luta e resistência do Cerrado, apresentada por Rubenmar, ressaltou uma vez mais os impactos negativos do agro e hidronegócio, que acabam com o meio ambiente e a população brasileira. Nesse sentido, ele relembrou o dito: "Quando a última árvore cair, quando o último rio secar, quando o último peixe for pescado, só então daremos conta que o dinheiro não se come".

Vanúbia Martins, coordenadora da CPT Regional Nordeste II e assessora da Fonte, resumiu explicando que a agroecologia é um processo de equilíbrio, de construção coletiva e principalmente de amor. Mas ela advertiu que, apesar das conquistas e além das ameaças apresentadas, o perigo é bem mais amplo, representado pelo governo golpista. "Não podemos esquecer que este governo quer destruir nossos povos, nossas culturas, nossas conquistas e muito mais. Por isso, a luta agroecológica implica feminismo, empoderamento das juventudes e tudo o que não seja do interesse do capital", afirmou. "A agroecologia é nosso instrumento de luta, e pode garantir nossa soberania através do feminismo, da justiça socioambiental e de um equilíbrio econômico, social e ambiental", concluiu.

 “Eu creio na semente, lançada na terra, na vida da gente. Eu creio no amor [...]”, canção de do Padre Coppi, considerada um hino da agroecologia.

Crédito: Marina Moreira

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