COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Testemunho das mulheres de vários países latinoamericanos marcou último dia da IV Assembleia de Mulheres da CLOC.

Painel mostrou testemunhos de mulheres rurais unidas na diversidade

Dolores, Indígena da CLOC-VC  Guatemala, compartilhou sua visão e sentimento sobre a terra "nós somos um elemento espiritual, sem a terra  não temos identidade, a Mãe Terra é sagrada. As mulheres indígenas, vemos a terra como um bem coletivo, que dá alimento aos bons e maus que existem nela. Lutamos pela terra, as sementes que também vem da terra, as populações urbanas também devem fazer sua parte para lutar pela terra, porque daí vem os alimentos que vão para a cidade ". Com respeito à propriedade da  terra, diz:  "Na Guatemala reconhecem a copropriedade da terra de homens e mulheres, mesmo que contrário às leis. As comunidades indígenas defendemos a terra, morros, montanhas, onde estão nossas riquezas que hoje quer nos tirar o capitalismo”.

Ionia Segredo, da Ranquil do Chile, falou um pouco da luta das mulheres trabalhadoras em seu país, "Eu sinto inveja pela relação que vocês têm com as plantas, a terra, companheira da Guatemala, porque eu trabalho com as plantas e minha relação é diferente, porque sempre que eu tenho que cortar um galho e que as multinacionais me pagavam para fazer isso uma miséria, eu ficava triste. O capitalismo selvagem, que faz com que vejamos as companheiras de trabalho como inimigas, porque temos de lutar por uma caixa para colher mais, não nos deixa colher e lutar coletivamente. Estamos lutando para que isso acabe ", disse frente a uma assambleia indignada pelo depoimento.

As mulheres empregadas do Chile também são um exemplo das injustiças contra as mulheres, em termos de baixos salários que recebem para trabalhar quase todos os dias, impedindo-as de compartilhar o crescimento e desenvolvimento dos seus filhos.

Socorro Pizo, da FENSUAGRO, Colômbia, uma organização de 34 anos de luta e resistência pela terra de homens e mulheres, disse, "vivemos em uma guerra civil não declarada. Há, também, um aprofundamento das desigualdades sociais, por isso tantos agricultores tem se  levantado e pegado em armas pela transformação social. A FENSUAGRO vem fortalecendo a organização em vários níveis, com ênfase na soberania alimentar, resgatando sementes, produção limpa de alimentos, e as mulheres têm aumentado sua participação nesse processo social, em conjunto, para também lutar contra as políticas que procuram acabar com o campesinato e fortalecer o  agronegócio, contra nossas produções”, concluiu a representante da Colômbia.

Por sua vez, Luz Lanchi, artesã da  FENOCIN,  compartilhou  o trabalho das artesãs da província de Cotacachi, “um trabalho que as mulheres desempenham de forma cooperativa, além do trabalho na agricultura, cuidando da Mãe Terra que nos dá vida e alimento a cada dia ", disse a delegada.

Através deste trabalho de revalorização do artesanato, fazendo treinamento dos grupos em macramê, bordados à mão em camisetas, sandálias, roupas de cama, mantas,  tiveram a experiência de exportar, embora com alguma dificuldade, além de fazer uma feira que envolve as famílias que têm de se organizar com outras tarefas da produção agrícola, como criação e pastoreio de animais.

Maiobi, da ANAP de Cuba, ouviu a realidade das mulheres de outros países que são muito diferentes do que a das mulheres cubanas. "Vivemos em uma revolução em que a mulher é protagonista em tudo, respeitada em todos os cenários, e têm direitos como os homens, a primeira reforma agrária foi assinada por uma mulher, desfrutam deste privilégio mulheres de qualquer idade que desejam e querem trabalhar na terra. Temos esperança de que todas as mulheres do mundo tenham oportunidade de lutar por uma vida melhor, mas que essa luta não tenha que ser ainda por respeito pelas mulheres, porque isso penso que já conquistamos”, destacou.

“Às mulheres cubanas o que mais nos afeta é o bloqueio do imperialismo, que pretende fazer e ter tudo o que não é dele, o bloqueio nos limita a comprar insumos para a produção e torna tudo mais caro", concluiu Maiobi, resgatando a importância da solidariedade e partilhando um poema de uma campesina cubana.

Micheline, do MST no Brasil, socializou o duro trabalho que fazem as mulheres do campo e da cidade, levando o 8 de março como um dia de luta contra o capital e o agronegócio, porque as mulheres são as mais afetadas no presente e na história do patriarcado e do capital.

"Nós fizemos ações públicas, de formação e contra o golpe econômico das multinacionais. Frente a isto, a aliança do campo e da cidade é  importante para a luta de massas. Há ações que nos forçaram a assumir tarefas que realiszvam os homens, nós fomos condicionadas a aprender. Diante de uma grande ação, a repressão também é maior. Mesmo assim, com tudo isso, nos sentimos bem acompanhadas pela solidariedade de todas vocês", concluiu a delegada da  Via Campesina Brasil.

A indígena Bora, Irene Pinedo, pescadora da selva amazônica peruana, começou  agradecendo por estar participando da IV Assambleia de Mulheres da CLOC. A organização da qual faz parte, FEMUCARINAP, reúne várias organizações, entre elas a das pescadoras da Amazônia. "Nós usamos canoas, barcos, redes e anzóis para pescar, nossos antepassados usavam uma corneta de tamiza e folhas de palmeira tecidas como armadilhas para pegar os peixes. As mulheres indígenas na Terra Pachamama plantamos bananas, mandioca, fazemos farinha de mandioca para comer com o peixe, para a nossa soberania alimentar diária. Hoje, o pescador sofre pela contaminação pelo petróleo”, socializou Irene.

Depois passaram a compartilhar brevemente o seu testemunho Ranquel Nora Loreto, do distrito Uancamana, que acompanha a luta das comunidades indígenas contra a poluição dos rios pelo petróleo, e Vilma Satamasmana, também do Perú, de uma região onde abundam os golfinhos e peixes, onde fazem artesanato com escamas de  paiche, para suas roupas.

Ao final falaram outras mulheres, entre elas uma Mapuche de Villarica, que trouxe a  luta do povo mapuche, que tem lutado toda a sua vida pela a soberania alimentar, pelo seu território, no qual muitos deram suas vidas. “Os governos e meios de comunicação falam sobre o conflito mapuche e não o é, mas é uma reivindicação legítima do povo mapuche, uma vez que a eles pertence o território".

Com o encerramento dos painéis e dos depoimentos que emocionaram a todas, se fortaleceu a energia sentida pelas mulheres na luta pela soberania alimentar, pelo futuro de seus filhos e filhas, com a solidariedade imensa de todos os povos presentes.

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