COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

Pela vida, democracia, respeito aos direitos humanos e liberdade de expressão, a Articulação das Pastorais do Campo relembra com pesar e repúdio o marco de 57 anos do Golpe Militar no Brasil, que ocorreu em 31 de março de 1964.

São anos cruéis da história brasileira marcados pela perseguição, violência e tortura contra movimentos sociais, povos do campo e populações indígenas. Esses que foram presos, mortos e desaparecidos pelo regime militar.

Não esqueceremos de Margarida Alves, Padre Josimo Tavares, os massacres contra os indígenas Cinta-Larga e Waimiri-Atroari , todos os mártires mortos e desaparecidos durante a ditadura militar no Brasil.

Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça!
Ditadura não se comemora!

Leia abaixo o texto de Pe. Alfredo J. Gonçalves, vice-presidente do SPM, que relembra a carga histórica dos anos vividos sob a ditadura militar.

Golpe, tortura e ditadura nunca mais

O livro Brasil: nunca mais foi um projeto desenvolvido por Dom Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, pelo Rabino Henry Sobel e pelo Pastor presbiteriano Jaime Wright, acompanhados por uma equipe. Constitui um laborioso trabalho, que durou nada menos do que 8 anos de pesquisa, sobre os processos políticos que tramitaram pela Justiça Militar entre abril de 1964 e março de 1979, em plena vigência da ditadura militar. A equipe era formada por um grupo de especialistas ligados à Comissão Justiça e Paz – a qual, entre outras coisas, incluía e representava a busca da verdade e a defesa dos direitos humanos. O projeto foi particularmente liderado pela arquidiocese de São Paulo, sendo o texto final prefaciado por Dom Paulo Evaristo Arns. O livro foi lançado em 15 de julho de 1985, pela editora Vozes. O sucesso foi tamanho que, atualmente, encontra-se na sua 41ª edição.

Essa gigantesca tarefa de estabelecer a verdade sobre o regime de exceção que vigorou de 1964 a 1985 representa um motivo (entre tantos outros) para dizer em alto e bom som que o Brasil viveu um período extremamente sombrio onde palavras tais como golpe, perseguição, censura, prisão, tortura, desaparecidos, mortos e ditadura devem ser sublinhadas. Elas cheiram e sabem de dor, sangue, lágrimas, saudade e sofrimento! Gritam também através do Congresso Nacional e dos meios de comunicação social, silenciados e silenciosos, cujo silêncio ecoou de forma forte e estridente por todo o período das armas que cospem fogo e bala, das fardas que amedrontam e das botas que pisam! Gritam, ainda, pelas dezenas e centenas de movimentos, universidades, sindicatos, associações, entidades, organismos e organizações, entidades e forças sociais que jamais se dobraram ou se calaram! Gritam, enfim, pelos inúmeros ativistas cuja história foi devastada, perseguida, vilipendiada – o que significou prender, fichar, torturar, matar, esconder provas e corpos, deixando famílias duvidosas e/ou enlutadas.

Tanta dor e tanta treva impedem que o dia 31 de março (ou 1º de abril se quisermos) passe para a história como uma data para a ser festejada ou comemorada. O estudo, a pesquisa e a ciência, com todo critério e seriedade que incorporam, já se encarregam de consolidar as ditaduras do Cone Sul – Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai (para não falar da América Central e da Europa na década de 1930 ou dos muitos exemplos da África e Ásia) – como experiências duras e sombrias de nossos povos. Capítulo à parte, mas sempre subordinado aos regimes de exceção, mereceriam as migrações que ocorreram, seja no interior da região, seja dela para fora. Quantos alunos e professores, estudiosos e cientistas, intelectuais e sindicalistas, agentes e profetas se viram obrigados ao autoexílio!? Mais do que nunca, em meio ao pesadelo da pandemia do novo coronavírus e em meio ao crescente autoritarismo do governo Bolsonaro, valem o alerta e a denúncia vigorosa: golpe, tortura e ditadura nunca mais. Nunca mais um governante que menospreza e debocha de seu povo aflito e enfermo – dos mais de 12 milhões de infectados, dos mais de 300 mil mortos e das mais de 3 mil vidas ceifadas num único dia. Nunca mais um chefe de estado que é capaz de “soltar fogos de artifício” pela ditadura militar, que chama de herói ao torturador e que lamenta que as vítimas desse período tenham sido poucas.

Nos dois traumas – pandemia e ditadura, político ou sanitário – o país encontra-se à deriva das ondas superficiais de narrativas obtusas, estapafúrdias e negacionistas. Mais grave, à deriva e sem bússola, sem piloto, sem farol e sem porto seguro, em direção ao qual possamos navegar com confiança. Miopia e cegueira, fanatismo e ideologia, cinismo e perversidade impedem ver que, sob essas ondas superficiais, as correntes profundas da economia, da sociologia, da cultura, antropologia, da ecologia e da psicologia seguem seus rumos. Independentemente do senhor de plantão, as leis da natureza e da história prevalecem sobre tiranos e tiranias. Através da voz de seus anjos, mensageiros ou profetas, Deus irrompe no tempo. Bifurca os caminhos, busca alternativas vitais aos regimes totalitários e opressores.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo 31 de março de 2021