COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Documento traz, além de pautas próprias, exemplos de exclusão e silenciamento contra pessoas LGBTI+

(Texto: Mário Manzi - Assessoria de Comunicação da CPT Nacional / Foto: Júlio Cesar Silva/  Divulgação: KOINONIA )

Realizado entre os dias 19 e 23 de junho na cidade de São Paulo, o 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+ divulgou nesta quarta-feira, 26, carta aberta à sociedade. O documento político traz como proposta a afirmação de “pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero” frente às religiosidades e comunidades de fé, além de denunciar experiências de exclusão contra essas pessoas. A carta foi elaborada durante o Congresso e minuciosamente avaliada coletivamente durante plenária, ao fim das mesas e oficinas.

Leia abaixo a Carta na íntegra:

 

CARTA DE SÃO PAULO

Documento do 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+: Diálogos Ecumênicos para o Respeito à Diversidade

Nós, pessoas reunidas no 1º Congresso Igrejas e Comunidade LGBTI+, realizado na cidade de São Paulo, na Paróquia da Santíssima Trindade da Diocese Anglicana de São Paulo/IEAB, entre os dias 20 a 22 de junho de 2019, e coorganizado por Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço, produzimos a seguinte Carta de São Paulo:

Afirmamos que pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero, assim como toda e qualquer pessoa, têm direito de buscar a Deus, o sagrado, a espiritualidade, a fé, a verdade, o amor em qualquer espaço religioso, principalmente em suas tradições de origem. Esse direito não é exclusivo das pessoas cisgênero, heterossexuais e brancas.

Afirmamos que as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero, assim como toda e qualquer pessoa, têm direito a ler, estudar, interpretar a Bíblia e outros textos sagrados e produzir teologia, em diálogo com suas comunidades, com sua história, com suas leituras de realidade, suas experiências de vida, fé, sofrimento, alegria e esperança. Esse direito não é exclusivo de homens cisgênero e de pessoas heterossexuais e brancas.

Afirmamos que as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero, assim como toda e qualquer pessoa, têm direito a ser respeitadas, acolhidas, reconhecidas e a participar plenamente da vida de fé de suas comunidades religiosas, assumindo, inclusive, lugares de tomada de decisão e posições de ministérios, pastorais, liderança e protagonismo. Esse direito não é exclusivo de homens cisgênero e de pessoas heterossexuais e brancas.

Constatamos e lamentamos que muitas instituições têm sido cúmplices e que a linguagem religiosa tem sido apropriada para constituir, reproduzir e perpetuar o sistema cis-heteronormativo de controle dos corpos e subjetividades. Um sistema que tem produzido exclusões, apagamentos, sofrimentos, violências e mortes. As mortes de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, mas sobretudo de travestis, transexuais, pessoas não binárias, intersexo, queer e outras expressões de gênero, no Brasil e na América Latina, estão atravessadas pela teologia cristã hegemônica.

Lamentamos e denunciamos que muitas comunidades de fé, sobretudo entre as cristãs, tenham se tornado espaços de silenciamento, opressão, humilhação, exclusão e abuso espiritual, psíquico, econômico e sexual. Máximas como “Deus ama o pecador, mas odeia o pecado” e “macho e fêmea os criou” são frequentemente utilizadas para produzir medo, vergonha, culpa e silenciamento. Discursos e práticas como esses têm contribuído para produzir relações familiares violentas, sofrimento psíquico e, no limite, muitos casos de depressão e suicídio entre pessoas lésbicas, gays, bissexuais, assexuais, travestis, transexuais, não binárias, intersexo, queer e de outras expressões de gênero, especialmente negras, pobres e de territórios vulnerabilizados.

Lamentamos e denunciamos que, como estratégia para alcançar representatividade, muitas lideranças políticas e midiáticas do campo religioso, sobretudo entre cristãos, estejam se apropriando e instrumentalizando o imaginário e a linguagem religiosa e teológica para produzir e disseminar pânico moral, ressentimento, medo e ódio a partir de expressões como “ideologia de gênero” e reforço da “hombridade”. Esse modelo de atuação política, além de trair os próprios princípios éticos cristãos e de diversas religiões, tem produzido a fragmentação e a destruição de relações em muitas famílias e comunidades de fé. Também tem produzido um efeito perverso de negação de direitos fundamentais de proteção e de cidadania de diversas populações vulnerabilizadas e estigmatizadas. Uma das faces mais perversas desse problema tem sido a negligência diante de questões de saúde pública, tais como a prevenção e tratamento do HIV/aids e mortes evitáveis por abortamento inseguro, além de incentivo à busca por reorientação sexual e de reversão de cirurgias de redesignação sexual. Outro grave efeito tem sido a desarticulação de políticas públicas de educação voltadas para o combate à violência e à discriminação relacionadas a gênero e orientação sexual.

Lamentamos e denunciamos que a linguagem religiosa e teológica venha sendo instrumentalizada, especialmente entre cristãos, para justificar e promover o racismo religioso e a desumanização de populações negras, povos e comunidades tradicionais, do campo, das águas e das florestas, moradores de periferias urbanas, camponeses, imigrantes, refugiados, mulheres, LGBTQIA+ e outros grupos vulnerabilizados. Essa desumanização tem sido a base para a necropolítica, materializada em processos de exclusão, invisibilização, miserabilização, violência e extermínio dessas populações. Uma das faces mais perversas desse problema tem sido os ataques violentos a comunidades tradicionais de matriz africana e indígena, igrejas inclusivas e outros templos e espaços religiosos não cristãos.

Lamentamos que muitas vezes lideranças religiosas que têm assumido compromissos com o acolhimento, o apoio pastoral e a defesa dos direitos das populações LGBTQIA+ e outras comunidades vulneráveis estejam sendo perseguidas, excluídas e/ou silenciadas em suas comunidades de fé e denominações religiosas de origem.

Vemos com alegria e esperança a existência e o surgimento de novas comunidades de fé que têm assumido a responsabilidade de acolher e de tornar-se espaços seguros para a celebração, a partilha e a vivência da fé de pessoas LGBTQIA+ e assumido compromissos no combate ao sexismo, às desigualdades de classe e ao racismo. Afirmamos a importância de valorizar, visibilizar e fortalecer a atuação dessas comunidades, bem como celebrar as gerações que nos antecederam na luta pelos direitos de LGBTQIA+ e abriram caminhos para que novas formas de luta e de acolhimento pudessem se tornar realidade.

Enfatizamos, todavia, que não é suficiente o mero acolhimento formal das pessoas LGBTQIA+. É necessário desenvolver comunidades seguras, que não reproduzam modelos de exclusão, invisibilização, silenciamento, abuso e violência espiritual, simbólica, psicológica, sexual, econômica e física e que criem condições para a cura e a reconciliação diante desses processos.

A luta pela inclusão e reconhecimento das pessoas LGBTQIA+ contra o modelo religioso cis-heteronormativo, classista, racista e misógino não é uma necessidade e um tema que diz respeito somente às pessoas LGBTQIA+ e de populações vulneráveis. É uma luta que diz respeito a todas as pessoas de fé e é um elemento central da mensagem cristã e diversas outras religiões: a reconciliação das pessoas com Deus/sagrado, consigo mesmas, com seus corpos, com as outras pessoas e com a realidade. A homolesbifobia é um problema das pessoas heterossexuais; a transfobia é um problema das pessoas cisgênero; o sexismo é um problema dos homens; a injustiça social é um problema dos ricos e o racismo é problema das pessoas brancas.

É necessário, especialmente entre as pessoas cristãs, recuperar a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo do amor radical e transformador; confrontar os modelos religiosos do legalismo e da exploração da culpa, do ressentimento, do medo e do ódio. O caminho a ser seguido passa necessariamente pelo desafio de desenvolver novos modelos de vivência comunitária da fé, baseados na esperança, na amizade, na criatividade, na beleza e na busca pela construção de uma nova realidade a partir do horizonte do amor, paz, solidariedade e justiça.

Oramos para que o sopro renovador do Espírito Santo e a força da fé inspirem e restaurem o nosso tempo. Convidamos todas as pessoas que partilham desse sonho a participar da construção dessa realidade!

Esta carta foi construída por pessoas presentes ao Congresso e que se identificaram a partir das seguintes tradições, denominações e afiliações religiosas e não religiosas, que não necessariamente representam o pensamento oficial de cada uma das instituições:

Aids Healthcare Foundation – AHF Brasil

Aliança de Batistas do Brasil

Anglicanxs – Catedral Anglicana da Santíssima Trindade – PoA/RS

Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT)

Associação Hikari

Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA)

Caminho da Graça

Catedral Anglicana do Bom Samaritano-Diocese Anglicana do Recife

Católicas pelo Direitos de Decidir-CDD

Centro de Estudos Bíblicos- CEBI

Centro de Estudos Anglicanos- CEA

Centro Espírita Kardecista

Comissão LGBT do MST

Comissão Pastoral da Terra- CPT

Comunidade Anglicana Redenção – Diocese Anglicana no Brasil

Comunidade Cristã Nova Esperança- CCNE da Vila Mariana

Comunidade de Vida Cristã do Brasil – CVX Brasil

Comunidades Tradicionais de Religião de Matriz Africana - Ilê Axé Omó Nanã; Ilê Asé Iyalode Oyó; RENAFRO-SP

Diversidade Católica – Rio de Janeiro; Campinas; São Paulo

Evangélicas pela Igualdade de Gênero – EIG

Evangelicxs pela Diversidade

Fé, Família, Igualdade – A Mesa-Redonda Latinx

Féministas

Força Tarefa Jovens Lideranças

Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito

Grupo de Ação Pastoral da Diversidade (GAPD)

Igreja Adventista do Sétimo Dia

Igreja Batista

Igreja Batista do Caminho

Igreja Betesda

Igreja Católica Apostólica Romana-ICAR

Igreja Episcopal Anglicana do Brasil- IEAB

Igreja Evangélica

Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil-IECLB

Igreja Metodista do Brasil-IMB

Igreja Metodista Unida

Igreja Pentecostal

Igreja Presbiteriana do Brasil-IPB

Igrejas da Comunidade Metropolitana – ICM Brasil

Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT)

Koinonia – Presença Ecumênica e Serviço

Mães pela Diversidade

Missão One Heart for Healing

Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST

Movimento Negro Evangélico de Pernambuco

Movimento Pastoral LGBT “Marielle Franco” – MOPA

Paróquia da Santíssima Trindade-Diocese Anglicana de São Paulo

Pastoral da Juventude Rural

Pessoas “desigrejadas”

Pessoas sem religião

Raiwbow Sangha

Rede Ecumênica da Juventude – REJU

Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT

Scottish Episcopal Church

The Episcopal Church - USA

UMForward

We Are Church – São Paulo

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