COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Em seminário sobre impactos de Belo Monte e Belo Sun, ribeirinhos expõem resultados das alterações ambientais na região.

 

 (Por Lilian Campelo – Brasil de Fato | Imagem: Marcelo Salazar / ISA)

Quais os efeitos sociais, ambientais e políticos que o projeto Volta Grande, da mineradora canadense Belo Sun, somados aos impactos da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, poderão trazer para a população que vive na região do rio Xingu, no Pará? Esse foi o debate do seminário “As Veias Abertas do Xingu”, realizado em Belém na última semana. 

Presente no evento, a ativista ambiental Antônia Melo falou do temor de que o projeto Volta Grande seja concretizado a “ferro e a fogo”, como ocorreu com a hidrelétrica Belo Monte, que está instalada em Altamira, no Pará.  

“O medo é de que o governo, o judiciário, autorize a instalação dessa monstruosidade que se chama Belo Sun, na margem do rio Xingu, com um peso muito grande, criminoso de material de cianeto que iria matar o rio Xingu, a fauna e a flora e os seus povos”, diz. 

O seminário “As veias abertas do Xingu” ocorreu 43 dias após a primeira tentativa, desta vez sem as ameaças que interromperam o evento original. Em novembro, o prefeito do município de Senador José Porfírio — na região de Altamira, no sudeste do Pará —, Dirceu Biancardi (PSDB), junto com um grupo de 40 pessoas, invadiu o auditório da Universidade Federal do Pará (UFPA) e não deixou que os pesquisadores expusessem os trabalhos. Segundo relatos divulgados, o grupo também impediu que os participantes de saírem do local. Na época, a Prefeitura publicou nota à imprensa negando tais fatos. 

A empresa Belo Sun visa a extração de ouro em Senador José Porfirio. No site do projeto é informado que o município receberá, por ano, o montante de R$ 19 milhões durante a fase de obra e R$ 5 milhões quando a mina começar a operar. 

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Impactos de Belo Monte

Antônia Melo é fundadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, coletivo que integra povos indígenas, organizações religiosas, mulheres, pescadores e outros habitantes da região. Ela luta há quase três décadas contra a barragem de Belo Monte e diz ter medo de que outras barragens venham a ser construídas ao longo do rio Xingu. 

Em 2015, ela e os vizinhos da rua onde moravam, em Altamira, foram desalojados à força e viram suas casas e parte da memória serem demolidas para dar lugar às obras da hidrelétrica. Ano passado, Melo foi premiada, em Nova York (EUA), com o Prêmio Fundação Alexander Soros para o Ativismo Ambiental e de Direitos Humanos.  

Assim como Melo, outra mulher teve que deixar parte de sua história: Raimunda Gomes da Silva, do Conselho Ribeirinho do Xingu. Ela também estava presente no seminário. Silva lembra que, antes, a residência dela ficava na beira do rio. Ela e outros ribeirinhos que foram reassentados, tiveram que sair para dar lugar para a usina. Hoje, ela mora à margem do lago da barragem. A mudança trouxe sérias consequências à vida dela e do marido. 

“Depois de Belo Monte, a minha vida virou de cabeça pra baixo. O meu marido ficou doente, ele teve três AVC’s [Acidente Vascular Cerebral] ficou sem andar.. O que o Belo Monte deu para minha morada foi R$ 23 mil, que não deram nem para tratar direito do meu marido. Eu, agora, estou reassentada na margem do lago, na outra parte do rio que não era o meu local, eu não tenho mais o rio Xingu, eu tenho um lago, a água do lago é podre”, diz. 

Ribeirinha Raimunda Gomes da Silva leva para o evento uma garrafa de água do lago. É com essa água que prepara os alimentos. Crédito: Lilian Campelo / Brasil de Fato

Silva levou para apresentar aos participantes do evento uma garrafa de água de cor amarelada. É a água vinda do lago e que ela utiliza para fazer comida, tomar banho e beber. A família de Silva vive da pesca. Ela conta que, antes, o ribeirinho conhecia o rio Xingu, conhecia em quais pontos do rio havia diversidade de peixes. Ela conta que depois da construção da barragem, "o pescador ficou perdido, os peixes sumiram e os que conseguem capturar estão doentes". 

“Hoje, com o lago, a gente captura o peixe, mais ou menos para consumo, e é só um tipo [de peixe], não é toda espécie que a gente está comendo porque o peixe está doente. Agora na cheia o lago está oscilando, o rio vai e vem, ficou doido. A gente está pegando simplesmente a Curimatá, não é nem a fêmea, é só macho, porque a fêmea está ovada, mas as ovas estão secas”, revela. 

Silva sofre pela segunda vez os impactos socioambientais de uma barragem. Na década de 1970, ela viu a construção da usina hidrelétrica de Tucuruí, região sudeste. Saiu do município que leva o mesmo nome da usina e migrou para Altamira na esperança de reconstruir a vida.  

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