COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

Mais de 1500 militantes de movimentos sociais do campo, da cidade e indígenas realizaram hoje (20) um ato de solidariedade à comunidade Vila Autódromo, localizada na Baixada de Jacarepaguá, próximo à Barra da Tijuca. A comunidade é ameaçada de despejos há mais de 20 anos, e sofre agora nova ofensiva por causa dos Jogos Olímpicos, que serão realizados em 2016.

 

(José Coutinho - equipe de convergência)

Para Luis Zarref, dirigente da Via Campesina, a importância do ato se dá porque “a Vila Autódromo é um símbolo de resistência de todas as comunidades que estão sofrendo despejos pelos megaeventos, grandes investimentos, corporações, enfim, pelos projetos de desenvolvimento que são contrários aos interesses do povo. É um ato também que simboliza a luta dos desterritorializados, que estão sendo expulsos não só no espaço urbano, mas no campo e nas comunidades tradicionais”.

O ato teve início ontem (19), com uma vigília iniciada na comunidade por parte dos movimentos. Pela manhã de hoje, os manifestantes fizeram uma marcha simbólica por toda a comunidade, seguida por fala de militantes e apoiadores. Por fim, o ato fechou uma das faixas da Avenida Salvador Dali, em uma área próxima ao Riocentro, na qual as reuniões e negociações da Rio+20 estão ocorrendo.

Polícia – A presença policial durante todo o ato foi constante. Os moradores contam que desde as cinco da manhã, helicópteros sobrevoavam a comunidade. Além disso, a polícia criou uma barricada, que contou com mais de 50 policiais e o “Caveirão”, veículo de operações especiais do BOPE, para impedir que o ato avançasse ao Riocentro. De acordo com Zarref, a polícia tem o papel de intimidar a comunidade. Muitas pessoas não vieram por medo; nós identificamos vários policiais à paisana, e a comunidade fica com medo de sofrer repressão, porque os à paisana identificam quem está mobilizando da comunidade para depois perseguir.

O dirigente da Via Campesina acredita que a presença policial que intimida e, em última instância, reprime, “é sinônimo de um processo de militarização que o Rio vem sofrendo desde as Unidades Policiais de Pacificação (UPPs), e vem no sentido de evitar que a comunidade massifique a luta. Mas eles não foram capazes disso porque os movimentos sociais, em solidariedade à comunidade, vieram massivamente, e fizeram um ato bom, bonito e importante”.

História de resistência - A Vila Autódromo surgiu no início dos anos 1960 como uma vila de pescadores. Depois da construção do Autódromo de Jacarepaguá, em 1975, os operários que trabalhavam na construção foram se agregando à vila de pescadores. Os moradores foram empurrados em uma área aterrada, localizada no meio do Autódromo e da margem da lagoa. Em 1992, a Prefeitura do Rio de Janeiro solicitou a remoção da comunidade, alegando que ela causava “dano estético e ambiental”; em 2007, por conta dos Jogos Pan-Americanos, a comunidade sofreu mais uma ameaça de remoção para que se construíssem projetos imobiliários na região.   A remoção pretende remover o autódromo e a vila para os jogos olímpicos. Caso ocorra um despejo, cerca de 4000 pessoas que moram na área serão expulsas de suas casas.

Segundo Maria Motta, membro da Associação de Moradores da Vila Autódromo e que vive lá há dez anos, “o projeto da prefeitura de remoção existe há muitos anos, desde que o prefeito Eduardo Paes era subprefeito da Barra ele queria nos remover. Esse projeto é feito em conchavo com as construtoras, que são as ao longo de todos esses anos, como a Carvalho Rocha, que financia as campanhas de Eduardo Paes. A área da comunidade é muito valorizada, por isso somos alvo de cobiça dos grandes empreendedores imobiliários”.

Maria ressalta que caso ocorra o despejo de fato, que está previsto para acontecer neste ano, a população não tem garantido um local para o qual seria realocada. “Um projeto do prefeito era nos realocar em uma área cujas terras foram compradas de uma forma excusa pela prefeitura. As terras pertenciam ao jogador Ronaldo Fenômeno, e valiam na época 250 mil reais. A prefeitura pagou 19 milhões e 900 mil reais pelo terreno. Por isso, maioria dos moradores se recusou a fazer o cadastro para ir para lá. Não sabemos o que vai acontecer, vai ser uma guerra”.

Projeto Popular – A Vila autódromo conta com um projeto de urbanização criado em conjunto pela comunidade em parceria com os setores de Arquitetura da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O projeto, que está em construção, é criado por meio de assembleias com a população, que pode debater os pontos do projeto e votá-lo.

Entre outras coisas, o projeto popular reafirma o Direito à Moradia da comunidade e tem propostas para a Habitação, Saneamento, Transporte, Infraestrutura, Meio Ambiente e Desenvolvimento Cultural. Segundo Maria, “O projeto popular tem o apoio da comunidade, e por isso é opostos ao da prefeitura, que vem de cima para baixo e é fruto dos interesses das grandes construtoras”.

Gostou dessa informação?

Quer contribuir para que o trabalho da CPT e a luta dos povos do campo, das águas e das florestas continue? 

Clique aqui e veja como contribuir