COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

O mundo está vivendo o aprofundamento de mais uma imensa crise econômica. Quando isso aconteceu, há mais de uma década, a crise provocada por um colapso do setor financeiro desencadeou uma corrida global por terras agricultáveis. Fundos de pensão, empresas financeiras e bilionários buscaram refúgio na especulação com terra e recursos naturais.

Texto e imagens: GRAIN & Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

Corporações financeiras como a administradora de fundos de pensão TIAA, nos Estados Unidos, e o sistema previdenciário nacional da Suécia, transferiram centenas de milhões de dólares para novos fundos de terras. Além de instituições financeiras, a Universidade de Harvard passou a especular com terras agrícolas utilizando seu fundo patrimonial de 40 bilhões de dólares.

Nos oito anos seguintes à crise de 2008, Harvard investiu mais de 1 bilhão de dólares na aquisição de uma carteira global de terras agrícolas, que somaram cerca de 1 milhão de hectares entre Estados Unidos, Brasil, leste europeu, África do Sul, Nova Zelândia e Austrália. Esta estratégia de Harvard levou a instituição a avançar sobre alguns dos lugares com os piores conflitos agrários e ambientais do planeta.
 
 
O Brasil foi alvo preferencial de Harvard. A instituição criou três estruturas, administradas por três operadoras distintas do agronegócio brasileiro, para a compra de terras no país. Em 2016, essas três estruturas haviam adquirido mais de 40 propriedades rurais, correspondendo a cerca de 405 mil hectares, uma área equivalente a quase o dobro de todas as terras agrícolas do estado de Massachusetts, nos EUA (veja o Quadro: A estrutura das operações de Harvard em terras agrícolas brasileiras).
Estrutura das operações agrícolas de Harvard no Brasil
 
Os negócios agrícolas de Harvard no Brasil foram articulados por meio de três estruturas envolvendo três operadores locais.21
 
Insolo
 
Acredita-se que o magnata brasileiro da indústria de peças automotivas Ivoncy Ioschpe descobriu o potencial de lucro com atividades agrícolas no Cerrado em 2000. Ele logo começou a adquirir terras no estado do Piauí e contratou um grupo de agrônomos locais que criou uma empresa chamada Insolo para transformar as propriedades em plantações de soja e algodão. Em 2008, Ioschpe assumiu o controle da Insolo, colocou seu filho Salomão no comando das operações e transformou a empresa em um canal entre o dinheiro do fundo patrimonial de Harvard e a aquisição de grandes áreas de terras no Piauí. A Universidade detém 95,8% dessa empresa, que agora se chama Insolo Agroindustrial S/A, por meio de sua administradora de fundos Phemus Corporation e várias outras subsidiárias sediadas no estado norte-americano de Delaware e no Brasil. Entre junho de 2008 e junho de 2016, Harvard injetou pelo menos 138,7 milhões de dólares na Insolo Agroindustrial S/A, que adquiriu pelo menos seis fazendas com um total de 115 mil hectares no Piauí. Harvard também pagou 3 milhões de dólares a uma empresa ligada ao grupo de Ioschpe como honorários de consultoria por “serviços de investimentos” entre junho de 2009 e junho de 2017, e 4 milhões de dólares entre junho de 2017 e junho de 2018.
 

Gordian Bioenergy (GBE)

Conhecida como GBE, a Gordian Bioenergy é uma empresa de investimentos em participações privadas administrada, em parte, pelo empresário brasileiro de origem grega Diomedes Christodoulou, ex-CEO das operações da Enron na América do Sul, e também por vários de seus antigos colegas de Enron: Roberto Hukai, John Novak e Steven Madrid. Em 2007, Christodoulou e equipe procuraram investidores norte-americanos e europeus para apoiar um projeto de plantação de cana-de-açúcar e refino de etanol de 150 milhões de dólares que planejavam implantar no Brasil. Os empresários entraram em contato com o fundo patrimonial de Harvard e as duas partes criaram uma estrutura corporativa como um canal entre o dinheiro de Harvard e o empreendimento, passando por uma empresa nas Ilhas Cayman. A GBE e sua subsidiária Terracal passaram, então, a adquirir terras agrícolas na cidade e nos arredores de Guadalupe, no Piauí, onde propuseram a construção de operações de cana-de-açúcar e de produção de tomate em larga escala. Também foram compradas terras nos estados vizinhos para a implantação de grandes projetos de monocultivo semelhantes. Entre junho de 2008 e junho de 2015, Harvard transferiu mais de 246 milhões de dólares para a GBE para a aquisição de terras.
 
Granflor/Caracol
 
Antes de começar a atuar na agricultura brasileira, Harvard investiu no setor madeireiro. Alguns desses negócios foram articulados por dois empresários brasileiros do setor florestal: Romualdo Maestri e Victor Hugo Silveira Boff, fundadores da empresa Granflor Agroflorestal. Em 2008, Harvard e esses dois empresários criaram uma empresa na cidade de Porto Alegre chamada Caracol Agropecuária. Harvard detém 100% dessa empresa por meio de um grupo de subsidiárias registradas no estado norte-americano de Delaware, e o negócio recebeu mais de 60 milhões de dólares da administradora de fundos da Universidade Blue Marble Holdings entre junho de 2008 e junho de 2016 para a aquisição de terras, principalmente no estado da Bahia. No mesmo período, parece que Harvard pagou mais de 10 milhões de dólares a Maestri e Silveira Boff por serviços de investimentos por meio da empresa Mb - Gestão e Projetos.
 
A aposta de Harvard em terras brasileiras se transformou em um desastre financeiro para seu fundo patrimonial. A universidade teve que reduzir o valor de sua carteira de recursos naturais em 1,1 bilhão de dólares em 2017 e tem tido dificuldade para encontrar compradores para suas propriedades rurais.1 As últimas declarações de imposto de renda e registros de terras disponíveis de Harvard indicam que apenas um pequeno número das propriedades da instituição no Brasil já foi vendido.
 
As negociações envolvendo terras brasileiras tiveram um efeito desastroso para as comunidades rurais que vivem nas regiões onde Harvard adquiriu propriedades. Em setembro de 2018, a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos e a GRAIN publicaram um relatório sobre as violações de direitos humanos e a destruição ambiental registradas em fazendas de Harvard no Brasil.2 Outras investigações e relatórios divulgados por organizações não governamentais e veículos de comunicação confirmaram nossas pesquisas. Desde então, líderes comunitários do Brasil, estudantes e professores de Harvard têm exigido ações por parte da universidade para remediar a situação. Mas os administradores da instituição e de seus fundos continuam calados e se recusam a tomar qualquer atitude.
 
Nossas pesquisas de campo recentes no Brasil apontam que a situação não mudou e, na verdade, está piorando. Além disso, novas informações indicam que Harvard adquiriu mais terras no país do que foi estimado anteriormente, e que suas operações estão conectadas com níveis alarmantes de desmatamento e incêndios florestais no Cerrado brasileiro (a savana com maior biodiversidade no mundo), gerando graves efeitos para a crise climática.3 (ver Mapa das aquisições de terras de Harvard no Brasil)
 
Mapa das aquisições de terras de Harvard no Brasil - cortesia da AidEnvironment
 
O fundo patrimonial de Harvard se descreve como um “investidor de longo prazo” e afirma ter o compromisso de ser “um bom gestor das terras que detém e administra”.4 Mas nossa investigação mostra o fracasso da Universidade em cumprir com suas próprias diretrizes. A instituição pode corrigir a situação, mas para isso precisa interromper a venda de suas terras no Brasil, devolvê-las às comunidades afetadas e pagar indenizações a essas comunidades. Essas são demandas de estudantes de Harvard e das comunidades brasileiras impactadas.
 
Outros fundos patrimoniais ou de pensão que planejam especular com terras agrícolas devem saber sobre os riscos de tais negócios. A resistência internacional contra a grilagem de terras se fortaleceu na última década, no Brasil e em todo o mundo.5

 

Impactos econômicos, sociais e ambientais
 
A gente vivia da pesca, do plantio. Ainda sinto o cheiro do arroz quando estava sendo colhido. Mas agora não podemos mais.”
 
Essa citação é de uma pessoa que vive em Arthur Passos, comunidade rural no estado do Piauí, no nordeste brasileiro, durante uma entrevista em outubro de 2019.6 Há dez anos, a comunidade de descendentes de populações africanas foi reconhecida oficialmente como quilombola e tem direito à terra. Porém, em 2013 o processo para garantir a titulação oficial da terra foi drasticamente interrompido.
 
Uma das empresas que pertence ao fundo patrimonial da Universidade de Harvard reivindicou toda a área ao redor das casas da população local. A empresa, Terracal – subsidiária de outra empresa de Harvard, a Gordian Bioenergy – instalou uma cerca de 17 km na área e contratou seguranças privados para impedir a entrada. A comunidade de Arthur Passos perdeu sua terra e meios de subsistência porque não pode mais plantar alimentos, pescar, criar pequenos animais, cultivar frutas e plantas medicinais.
 
A Terracal destruiu áreas de florestas e se preparava para iniciar um projeto massivo de monocultivo irrigado em 45 mil hectares. Em 2015 Harvard cancelou o projeto e retirou o recurso previsto de 350 milhões de dólares. Além disso, a Universidade orientou seus gestores brasileiros a venderem a propriedade o mais rápido possível.7
 
Informações disponíveis indicam que Harvard busca encontrar compradores para essas terras, que estão ociosas há cinco anos. No local se observa a presença de seguranças privados para impedir que os moradores de Arthur Passos – chamados pela instituição de “invasores” – retornem às terras que querem voltar a cultivar.

 

Placa e portão da fazenda de Harvard no Piauí indicando que os moradores de Arthur Passos e outras comunidades estão
proibidos de entrar – Daniela Stefano, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
 
A comunidade de Baixão do Aleixo, na Bahia, vive uma situação parecida. A subsidiária de Harvard, Terracal, chegou ao território em 2010, depois de comprar um título contestado de um grande lote de terra. Desde então, existe um tenso conflito entre a Terracal e os moradores que durante gerações utilizavam a terra para subsistência.8 A empresa tem adotado táticas perversas. Os moradores afirmam que há pessoas contratadas para oferecer propinas, incitar conflitos entre vizinhos, ameaçar e intimidar com violência.

“A gente estava vendo de uma hora pra outra ter morte. Uma vez nós estávamos bem nessa casa aqui e passou um carro que estava cheio de pistoleiros, com as armas. Pararam tudo e marcavam os pontos.”
 
Conversas trocadas entre Harvard e seus gestores brasileiros, disponibilizadas em uma ação trabalhista movida por um ex-funcionário da Terracal, mostram que a instituição tinha ciência do conflito com moradores do povoado no entorno de sua propriedade na Bahia. Quando o chefe das operações brasileiras informou aos gestores do fundo de Harvard, em 2017, que estavam ocorrendo “invasões” na propriedade na Bahia, a vice-presidente (de Risco Jurídico), Pamela Egleston, perguntou: “O que estamos fazendo para tirá-los daí?” E a resposta do diretor de operações brasileiras foi: “Estamos agindo... Estamos falando com o governo. Estamos fazendo o que sempre fizemos, entendeu?”
 
Os habitantes de Baixão do Aleixo não deixaram a luta pela defesa de sua terra perder força. Contestaram a empresa judicialmente e protestam contra as manobras da empresa para evitar que tenham direito à terra.
 
Enquanto isso, Harvard tenta encontrar compradores para essas e outras propriedades que a Terracal adquiriu em seu nome. Parece que a Universidade não está interessada no cultivo destas terras e quer mantê-las vazias até conseguir fechar a venda.

 

Os riscos dos negócios de Harvard com terras
 
A questão é a seguinte. O que me apavora é que nosso dinheiro está acabando, não tem mais dinheiro. Sempre que recebemos relatórios de Vitório, aparecem mais despesas. Agora temos uma mulher a quem devemos mais de 300 mil reais, porque ela foi demitida durante a gravidez. Temos outros cinquenta mil sei lá de onde...não sei o que mais vai aparecer. Nosso dinheiro está acabando. Diomedes, o que vai acontecer no ano que vem, quando não tivermos mais dinheiro? Por favor. Eu me apavoro. Tenho 99% desse projeto. Não sei o que vou fazer. Então, estou mesmo perdendo o sono com isso. E acho que todos precisamos pensar em formas bem inteligentes de cortar despesas onde for possível e, ao mesmo tempo, vender tudo que pudermos, da melhor forma que pudermos. Por que realmente não acho que, nesse momento, um cavaleiro branco vai aparecer e nos pagar uma quantia incrível para comprar todas as nossas offshores e nos varrer do mapa. Diomedes, quem no mundo vai entrar nesse barco?”
 
Essa citação é de Colin Butterfield, chefe de investimentos em recursos naturais do fundo patrimonial de Harvard, em conversa com Diomedes Christodoulou, presidente da Gordian Bioenergy (GBE) e articulador de um esquema agrícola no Brasil que foi desastroso para a Universidade. Há registros de que Harvard perdeu 150 milhões de dólares em apenas um dos vários projetos que a GBE vendeu para a instituição no estado do Piauí.9

 

Reunião entre o governador do Piauí, Wellington Dias (esquerda), e Diomedes Christodoulou, presidente da Gordian Bioenergy, em
janeiro de 2018 - site antigo.pi.gov.br. - Andre Oliveira
 
Christodoulou é ex-executivo da Enron e convenceu os gestores do fundo de Harvard a financiarem um esquema para compra de terras no Cerrado brasileiro e para expandir monocultivos em larga escala, com enorme risco social e ambiental. O topo do esquema, administrado pela Gordian Bioenergy e sua subsidiária brasileira, a Terracal, foi estruturado com uma complexa rede de empresas que operavam por meio de paraísos fiscais, como as Ilhas Cayman, o estado de Delaware nos EUA, e a Ilha de Man.10 (ver Organograma da GBE - Clique aqui para ampliar)

 

Organograma da GBE Clique aqui para ampliar
 
Em um período de cerca de cinco anos, a GBE e a Terracal adquiriram mais de 30 fazendas para Harvard em cinco estados do nordeste brasileiro, totalizando 168 mil hectares. Em 2019, um ex-funcionário da Terracal entrou com uma ação judicial contra a GBE e Harvard e anexou ao processo um documento com mais de 2 mil páginas de correspondências trocadas entre executivos e gestores de Harvard e as diversas empresas envolvidas no esquema. O documento revela como funciona a operação do fundo de US$ 40 bilhões de Harvard.
 
O documento mostra que Harvard tinha conhecimento sobre os conflitos com comunidades locais e sobre o risco de destruição ambiental e desmatamento nas terras que pretendia converter em plantações de monocultivos. Por exemplo, mapas da fazenda na Bahia, próxima de Baixão do Aleixo, enviados pela Deloitte para Harvard, mostram que a área era totalmente coberta de vegetação nativa. (ver Gráfico: Avaliação conduzida pela Deloitte sobre a fazenda do Boqueirão, na Bahia, Brasil, em maio de 2017Clique aqui para ampliar)
 

Avaliação conduzida pela Deloitte sobre a fazenda do Boqueirão, na Bahia, Brasil, em maio de 2017Clique aqui para ampliar

Não há uma única menção, nas mais de 2 mil páginas de documentos e correspondências, que indique que os gestores do fundo de Harvard estivessem preocupados com o impacto destes negócios agrários sobre as comunidades locais e o meio ambiente. Parece que a única preocupação da instituição era vender as propriedades o mais rápido possível.

Colheita tóxica

A Terracal não foi a única empresa utilizada por Harvard para adquirir propriedades rurais no Brasil. Houve duas outras operações administradas por empresas brasileiras, uma pela Caracol Agropecuária e outra pela Insolo Agroindustrial.

A Caracol adquiriu cerca de 100 mil hectares de terras na Bahia, mas não deu início à produção nesta área. A propriedade é palco de conflitos agrários e o Ministério Público Estadual está analisando denúncias de que a empresa de Harvard não é proprietária legítima da fazenda. Em outubro de 2019, no entanto, a Caracol recebeu autorização de autoridades estaduais para a destruição de mais de 5 mil hectares de vegetação nativa na propriedade para fins agrícolas.11

A Insolo é administrada por uma família de empresários brasileiros que se tornou uma das maiores proprietárias de terras no Piauí nos últimos vinte anos. Algumas das terras que eles adquiriram e agora operam para Harvard ficam próximas às serras do Quilombo e Riozinho, ao lado das comunidades de Salto, Morro d’Água e do Assentamento Rio Preto.

Em outubro de 2019, a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos conduziu entrevistas com a população local sobre os impactos das fazendas de Harvard e de outros latifúndios na região. Um dos principais problemas citados foi o uso de agrotóxicos e outros insumos químicos pulverizados por tratores e aviões. Os agrotóxicos atingem a comunidade, intoxicam as casas, poluem a produção de alimentos, provocando doenças e destruindo plantações. Como as fazendas estão localizadas na chapada, os agrotóxicos também poluem os recursos hídricos nos baixões.

“Todo o período chuvoso [de outubro a abril], a água da serra desce pro baixão, cai no riacho cheia de agrotóxicos. E essa é a água que nós consumimos. Aqui a gente não tem poço, nem água encanada; bebemos do riacho e [portanto] bebemos todo o agrotóxico que cai.”
 

A água fica barrenta, com mau cheiro”, disse outra das pessoas ouvidas. “No rio [Preto], vemos os peixinhos pequenos, boiando em cima, morto. Antes não via o peixinho morto. Antes, a gente pegava as piabinhas com balaio. Quando vamos pescar, agora, se vai de manhã, é até meio-dia pra pegar um peixinho... Não tem peixe no rio por causa do veneno.”

Os moradores afirmam que as fontes de água da região também estão secando por causa das fazendas de Harvard e de outros latifúndios na região, que utilizam grandes sistemas de irrigação com pivô central.
 
Teve uma fazenda aqui do lado da Galileia, a Insolo, ela desmatou 10 mil hectares e veio dois brejos a secar”, lembra um habitante do povoado. “Local onde antes o gado não passava com medo de atolar e agora o gado está é comendo dentro do brejo. Isso começou há uns sete ou oito anos atrás. Agora só tem água no período chuvoso. O desmatamento foi na cabeceira dos dois brejos. A Galileia fica bem na cabeceira e eles estão com medo deles perfurarem algum poço e pegarem aquela água lá.”
 
Os registros de terras indicam que Harvard vendeu a fazenda Galileia em 2017 para uma empresa do agronegócio chamada Grupo Peteca, mas, aparentemente, ainda detém outras propriedades por meio da Insolo na mesma região.12
 
A história se repete no município de Santa Filomena, também no Piauí, onde a Insolo administra outras propriedades rurais para Harvard. A comunidade de Baixão Fechado afirma que as fazendas da Universidade têm impedido o acesso da população a terras tradicionalmente utilizadas como pasto para o gado, e os sistemas de irrigação das plantações de Harvard estão secando as fontes de água da região.
 
Antes das fazendas as pessoas usavam o Cerrado para os animais e tinha mais água também, e agora isso acabou”, afirmou uma pessoa do povoado.
 
Ainda mais indícios de crimes ambientais
 
Uma série de investigações recentes também expôs a ligação da aquisição de terras brasileiras por Harvard com o desmatamento de áreas imensas no Cerrado.
 
O Cerrado é a maior e mais rica savana tropical do mundo em biodiversidade, um celeiro vital de dióxido de carbono, além de ser o “berço das águas” onde nasce a maioria dos grandes sistemas fluviais do Brasil. Mas, nos últimos anos, esse bioma se tornou a principal fronteira de expansão do agronegócio no país. Na última década, a região registrou um índice de desmatamento 50% maior que a Amazônia, com a perda de mais de 10 milhões de hectares de cobertura vegetal nativa.
 
A partir de imagens de satélite, Chain Reaction Research analisou o desmatamento nas fazendas de Harvard entre 2000 e 2017 e descobriu que pelo menos 53.117 hectares de floresta foram destruídos no período. Isso equivale a 625 vezes a área do campus de Harvard em Cambridge, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos.13
 
Grande parte do desmatamento registrado no Cerrado é resultado de incêndios provocados por empresas agrícolas para expandir suas propriedades. No ano passado, o número de queimadas cresceu drasticamente em comparação com o ano anterior, o que muitos analistas atribuem ao apoio do então recém-empossado governo de Jair Bolsonaro ao agronegócio. Entre agosto e setembro de 2019, o número de incêndios no Cerrado aumentou 78%, atingindo 22.989 hectares.14
 
Uma pesquisa conduzida pela AidEnvironment concluiu que as áreas de fazendas de Harvard coincidem com áreas de Cerrado onde houve uma grande concentração de incêndios florestais em 2019. Também foram encontrados indícios de inúmeras queimadas dentro de algumas propriedades de Harvard.15 Isso se confirmou durante pesquisas de campo realizadas pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos em outubro de 2019.
 
Os habitantes de Arthur Passos acreditam que os incêndios foram provocados para impedi-los de acessar a área. Quem mora em Baixão Fechado não tem tanta certeza da origem das queimadas, mas percebe que a situação piorou desde que a empresa de Harvard, a Insolo, começou a realizar atividades agrícolas na região.
 
Indícios de incêndios na Fazenda São Pedro, uma das propriedades que fazem parte do grande conjunto de terras agrícolas pertencentes a Harvard em Guadalupe, no Piauí,
em outubro de 2019 – Daniela Stefano, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
 
A Reserva da Galileia [fazenda da Insolo] está toda queimada. Reservinha que eles deixam, nos baixões, está tudo queimado”, afirmou uma pessoa de Baixão Fechado sobre a área da antiga propriedade de Harvard que a empresa tinha obrigação legal de preservar, e não destruir para atividades agrícolas. “Não sei se é fogo que eles mesmo colocam, com má intenção ou se é fogo que vem de outro lugar, não sei como chega. Cada ano que passa esquenta mais e, quando pega um incêndio, não controla mais.” Algumas pessoas que moram próximas das fazendas administradas pela Insolo afirmam que o uso de agrotóxicos pela empresa também está contribuindo para o aumento dos danos provocados pelos incêndios.
 
 
Harvard assumirá alguma responsabilidade?
 
Em outubro de 2019, Altamiran Lopes Ribeiro, defensor do Cerrado ligado à Comissão Pastoral da Terra, foi à Universidade de Harvard para falar com estudantes e professores sobre os impactos dos negócios agrícolas da instituição sobre as comunidades da região onde ele atua.
 
Esse roubo de terras está matando os sonhos do nosso povo”, afirmou Ribeiro. “Precisamos denunciar essa ideia de que o fundo de Harvard está garantindo o futuro da Universidade. Isso é mentira. Devemos intensificar nossos esforços para proibir que esses investimentos financiem o roubo de terras tanto no Brasil quanto em outros países.”16
 
Nos últimos anos, Harvard reduziu drasticamente seus recursos para compra de terras para atividade agrícola e madeireira. Em janeiro de 2020, a instituição vendeu suas fazendas australianas para outra corporação sediada em Boston, o Hancock Agricultural Investment Group, por 120 milhões de dólares.17 Parece que a Universidade está preparando a venda de seu polêmico projeto vinícola no Vale Cuyama, na Califórnia.18 No entanto, em janeiro de 2020, Harvard comprou uma grande participação na maior produtora de abacate do mundo, a Westfalia, que possui plantações em países como África do Sul, México, Chile, Peru e Estados Unidos. A Universidade teve o cuidado de destacar “o compromisso com uma gestão ambiental sustentável” da Westfalia, mas o novo investimento sinaliza que a Universidade voltou a comprar terras agrícolas e grandes plantações.19
 
É preciso que Harvard pare de fazer negócios destrutivos com terras e tome outras medidas. A Universidade precisa devolver essas terras para as comunidades e indenizá-las pela destruição de matas e fontes de águas envenenadas pelos agrotóxicos e outros insumos químicos. Para respeitar suas próprias diretrizes de investimento, Harvard precisa parar de tentar vender suas propriedades brasileiras e devolver a terra para as comunidades afetadas, e inclusive pagar indenizações pelos danos causados. Harvard precisa reconhecer que as terras devem ser devolvidas para pequenos agricultores que produzem alimentos para mercados locais, e que os latifúndios de monocultivos financiados pela Universidade causam mudanças climáticas e desmatamentos. Harvard precisa assumir uma postura clara e parar de adquirir terras no Brasil e em outros países.
 
É isso que estudantes de Harvard – em tese beneficiários do fundo patrimonial – estão exigindo. Em nota divulgada em agosto de 2019, os estudantes denunciaram o fundo patrimonial por “roubo de terras em enorme escala” e exigiram que a Universidade adote medidas imediatas para resolver os conflitos agrários associados a suas propriedades de terras para garantir que as comunidades afetadas recebam indenização adequada pelos danos sofridos com as atividades da instituição.20
___________________
 
 
1 Michael McDonald, “Harvard Endowment Hit by $1 Billion Natural Resources Writedown”, Bloomberg, 26 de outubro de 2017: https://www.bloomberg.com/news/articles/2017-10-26/harvard-endowment-hit-by-1-billion-natural-resources-writedown?sref=5DzaVjJc
2 GRAIN e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, “O fiasco agrícola bilionário da Universidade de Harvard”, 6 de setembro de 2018: https://www.grain.org/pt/article/6008
3 Amigos da Terra-EUA, GRAIN, Coalizão Nacional de Agricultura Familiar-EUA/National Family Farm Coalition-US, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, “Fazendas griladas pelos fundos de Harvard e TIAA no Cerrado em chamas”, 18 de outubro de 2019: https://grain.org/pt/article/6340
4 As diretrizes de investimento sustentável em recursos naturais de Harvard estão disponíveis em inglês em: http://www.hmc.harvard.edu/content/uploads/2019/11/NR-Sustainable-Investing-Guidelines.pdf
5 Veja, por exemplo, o site da campanha internacional pelo fim dos investimentos de empresas financeiras em terras agrícolas e florestais: https://stoplandgrabs.org/en-us/
6 As entrevistas com moradores de Arthur Passos e outras comunidades afetadas pelas compras de terras de Harvard no Piauí e na Bahia foram conduzidas pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos em outubro de 2019. A identidade dos entrevistados foi preservada por questões de segurança.
7 As informações relativas a conversas internas de Harvard citadas neste relatório vieram de documentos enviados ao Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, na ação de Ricardo José Melo de Moura Junior contra a Harvard Management Company et al., iniciada em 15 de maio de 2019.
8 Para mais informações sobre este e outros casos discutidos neste relatório, ver GRAIN e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, “O fiasco agrícola bilionário da Universidade de Harvard”, 6 de setembro de 2018: https://grain.org/pt/article/6008
9 Michael McDonald e Tatiana Freitas, “Harvard Blew $1 Billion in Bet on Tomatoes, Sugar, and Eucalyptus”, Bloomberg, 1º. de março de 2018: https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-03-01/harvard-blew-1-billion-in-bet-on-tomatoes-sugar-and-eucalyptus?sref=5DzaVjJc
10 A estrutura completa das operações está detalhada nos documentos enviados pelo Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, na ação de Ricardo José Melo de Moura Junior contra a Harvard Management Company et al., iniciada em 15 de maio de 2019.
11 Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – Inema, Portaria No. 19.388, 22 de outubro de 2019.
12 Segundo informações coletadas pela AidEnvironment (outubro de 2019), a partir de bancos de dados do Incra.
13 CRR, “Foreign Farmland Investors in Brazil Linked to 423,000 Hectares of Deforestation”, 17 de dezembro de 2018: https://chainreactionresearch.com/report/foreign-farmland-investors-in-brazil-linked-to-423000-hectares-of-deforestation/
14 Roland Hughes, “Amazon fires: What's the latest in Brazil?”, 12 de outubro de 2019: https://www.bbc.com/news/world-latin-america-49971563
15 Amigos da Terra-EUA, GRAIN, Coalizão Nacional de Agricultura Familiar-EUA/National Family Farm Coalition, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, “Fazendas griladas pelos fundos de Harvard e TIAA no Cerrado em chamas”, 18 de outubro de 2019: https://grain.org/pt/article/6340
17 Ellen M. Burstein e Camille G. Caldera, “Harvard Management Company invests in Avocados, Sells Other Natural Resource Assets”, Harvard Crimson, 22 de janeiro de 2020: https://www.thecrimson.com/article/2020/1/22/hmc-invests-in-avocado/
18 A Brodiaea, subsidiária de Harvard, recentemente enviou aos condados de San Luis Obispo e Santa Barbara projetos de ajuste de divisão de lotes, desmembrando 7 mil acres (cerca de 2.800 hectares) em 5 lotes, o que indicaria que há um plano para a venda dessas terras.
19 Ellen M. Burstein e Camille G. Caldera, “Harvard Management Company invests in Avocados, Sells Other Natural Resource Assets”, Harvard Crimson, 22 de janeiro de 2020: https://www.thecrimson.com/article/2020/1/22/hmc-invests-in-avocado/
20 Divest Harvard, “As the Amazon burns, we call on Harvard to cease its investment in farmland” 23 de agosto de 2019: https://farmlandgrab.org/29115
21 As informações a seguir são apresentadas em detalhe em relatório produzido pela GRAIN e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, “O fiasco agrícola bilionário da Universidade de Harvard”, 6 de setembro de 2018: https://grain.org/pt/article/6008
 

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