COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

Paulo César Moreira, da Comissão Pastoral da Terra, repercute notícia do De Olho nos Ruralistas sobre Valdelir Souza, que exporta madeira para os EUA enquanto está foragido.

 

(Por Izabela Sanchez, De Olho nos Ruralistas | Imagem: Joka Madruga)

Membro da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o padre Paulo César Moreira (foto ao lado) afirma que hoje, no Brasil, “há licença para matar”. Ele repercute a reportagem publicada nesta terça-feira (12/07) pelo De Olho nos Ruralistas: “Suspeito de articular massacre em Colniza exporta, foragido, madeira para os EUA“.

Enquanto está foragido da Justiça Estadual de Mato Grosso, acusado pelo Ministério Público Estadual de articular o massacre que vitimou nove pessoas em Colniza (MT), no dia 19 de abril, Valdelir João de Souza, ou Polaco, 41 anos, exporta, para os Estados Unidos, produtos de uma das duas madeireiras que controla.

Para Moreira, a força dos madeireiros e dos ruralistas no Brasil está empoderada. Os motivos? Ele pensa em dois: a impunidade dos crimes contra a vida, no campo, e o governo de Michel Temer (PMDB):

– Essa situação da força dos madeireiros, da força do agronegócio no caso de Mato Grosso, junto com Pará e Rondônia, está chegando no limite absurdo de violência contra as comunidades. Se você pega o Mato Grosso, de 1986 até hoje, você tem um histórico de pelo menos nove chacinas registradas, com no mínimo 55 pessoas assassinadas somente nas chacinas.

Ausência do Estado

Moreira afirma que a região de Colniza, onde a chacina ocorreu, é uma espécie de Estado paralelo, por causa da ausência do poder público:

 – Nessa região, o norte e noroeste de Mato Grosso, as oligarquias rurais são muito fortes, então você tem uma impunidade muito grande. Porque junta o poder de grilagem de terras com o poder da polícia, você tem políticos também. Então é uma região onde a violência tem crescido, onde têm acontecido diversas mortes, e, por conta da impunidade, esses crimes acabam tendo uma perpetuação muito forte.

O coordenador lembra que 2016 mostrou um aumento da violência no campo. Um levantamento da CPT mostra que o Brasil registrou 1536 conflitos em 2016, 26,2% a mais do que em 2015:

– Os dados de 2016 mostram 83 conflitos no campo em Mato Grosso. Os conflitos têm crescido e essa impunidade do Estado, tanto do Mato Grosso, como Rondônia, tem um histórico de violência com impunidade e faz com que figuras como ele, que já são carimbadas no campo da ilegalidade, saiam ilesos. E as terras aí são terras muito cobiçadas.

Governo Temer

O coordenador nacional da CPT demonstrou preocupação com a região, onde “estão para explodir novos conflitos”:

– Ali tem outros conflitos que podem explodir a qualquer momento, como na fazenda Magali. Tem um problema sério na região de regularização fundiária, problemas não resolvidos historicamente e por conta dessa não regularização e da força da grilagem de terras e agronegócio ali, isso se perpetua. É algo assim lamentável.

De Olho nos Ruralistas está publicando uma série de reportagens sobre a grilagem de terras, com base em dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR). No Mato Grosso, a soja tem invadido terras que são da União, como pontuou o coordenador.

Entre 31 municípios com mais de 35 mil hectares sobrepostos com Terras Indígenas, quase todos são produtores de soja. O grão disputa espaço com o território de etnias em regiões como o Parque do Xingu. Diz Moreira:

– E em estados como Mato Grosso isso vai se agravar, porque tem um número grande de fazendeiros em cima de terras da União e que estão há muito tempo. Não conseguem tirar esse pessoal. Você tem casos no Mato Grosso em que a própria Advocacia-Geral da União já protocolou em cartório terras que são da União. Então você tem um cenário nacional que possibilita isso, a força dos ruralistas. Estamos tendo a licença para matar.

Para o coordenador, a sanção pelo presidente Michel Temer da Medida Provisória “da grilagem”, nesta terça-feira, dando aos ruralistas uma área equivalente ao estado do Rio de Janeiro, agrava ainda mais o problema da grilagem e das chacinas no campo:

Na época, senador Romero Jucá (PMDB-RR), autor de projeto que depois foi convertido para MP 759/2016 , comemora vitória.

Crédito: Marcos Oliveira/Agência Senado

– Eles se baseiam tanto na força que têm quanto na impunidade. Porque tem um histórico de impunidade, tem um histórico de assassinatos no Brasil com essa questão da terra. Isso agora está totalmente fortalecido pelo momento que a gente vive politicamente. Agora temos a aprovação da MP 759, que vai agravar muito mais a situação agrária. Lamentavelmente o Temer sancionou essa medida ontem e com essa MP vão se agravar muito a corrida pelas terras e os conflitos no campo.

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