COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

A Encíclica social do Papa Francisco, Fratelli Tutti, lançada em Assis, no dia 03 de outubro de 2020, junto ao túmulo de São Francisco, é uma Encíclica que provoca as consciências de homens e mulheres para o tema central da Fraternidade urgente e necessária para se construir um mundo onde todos tenham seu lugar assegurado, com condições dignas de vida. Ninguém pode ser excluído da mesa da fraternidade. Nacionalidade, cor, religião nada pode e deve impedir uma autêntica fraternidade. “O mundo existe para todos, porque todos nós, seres humanos, nascemos nesta terra com a mesma dignidade. As diferenças de cor, religião, capacidade, local de nascimento, lugar de residência e muitas outras, não podem antepor-se nem ser usadas para justificar privilégios de alguns em detrimento dos direitos de todos”, diz o Papa. (118)

Apesar de uma afirmação tão veemente como esta, tem chamado a atenção de muitos e muitas que analisaram a Encíclica os silêncios do papa em relação a diversas categorias sociais. A mais evidente é em relação às mulheres.

Antônio Canuto* / imagem: Vatican Media

A Construção da Encíclica

Na construção desta Encíclica, como muito bem registrou Kevin Ahern, teólogo e presidente do movimento católico leigo ICMICA- Pax Romana, o Papa Francisco, como já tinha feito na “Laudato Si”, ampliou os parceiros de conversa. (Até Francisco as fontes das Encíclicas se limitavam quase que exclusivamente à bíblia e ao que disseram outros papas). Na Laudato Si e na “Fratelli Tutti”, são incluídas diversas outras referências, inclusive não-cristãs.

Kevin Ahern fez um levantamento bastante detalhado das fontes do papa nesta encíclica. São 292 citações, além das referências bíblicas: 172 das citações se encontram em seus próprios escritos. (Laudato Si, 23 citações; Evangelii Gaudium, 22 citações; mensagens para o Dia Mundial da Paz, 11. O documento conjunto com o xeque Ahmed Al- Tayyeb, sobre “Fraternidade Humana”, é citado nove vezes. Outros documentos - mensagens, discursos, homilias também estão presentes.)

Os papas anteriores foram citados 51 vezes, sendo que 22 das citações são o do seu antecessor, o Papa Bento XVI.

Como na Laudato Si, documentos de Conferências Episcopais são citados 12 vezes, representando as cinco regiões do mundo.

Além dos bispos, o papa cita, entre outros, o jesuíta Karl Rahner, Paul Ricoeur e, notavelmente, Rabino Hillel.

Ao final da Encíclica diz que se inspirou e se motivou sobre a Fraternidade Universal, em São Francisco de Assis, e também em outros irmãos não católicos, Martin Luther King Jr., Desmond Tutu e Mahatma Gandhi (nº 286). Mas reservou um lugar especial ao Irmãozinho Charles de Foucauld, hoje beato, que se sentia irmão de todos. O nosso grande cantor e compositor, Vinicius de Moraes, também mereceu uma citação.

As mulheres, quase invisíveis

Mas o que têm deixado intrigados muitos e muitas não foi o que Francisco afirmou, mas o que ele silenciou. O grande silêncio repisado por muitos dos comentaristas é sobre as mulheres.

Antes mesmo do lançamento circulou pela internet e mesmo na imprensa, uma grande polêmica relacionada ao título Fratelli Tutti, Todos Irmãos. Os comentários mais frequentes eram que o título, de certa forma, reforçava a postura da Igreja que não abria espaço para as mulheres. A maior parte defendia que o título incluísse Fratelli e Sorelle, Irmãos e irmãs.

Mas o problema não se restringe ao nome. Na Encíclica, praticamente as mulheres são invisíveis. Apesar de afirmar que “a organização das sociedades em todo o mundo ainda está longe de refletir com clareza que as mulheres têm exatamente a mesma dignidade e idênticos direitos que os homens” (23) e de que elas é que mais padecem situações de exclusão e violência, as citações não vão muito além disso. A palavra mulher ou mulheres aparece em todo o texto somente 23 vezes. O estranhamento é maior quando entre tantas referências, não tenha sido citada nenhuma mulher, havendo hoje um expressivo número de teólogas e exegetas de primeira linha, e se contando entre as mulheres muitas que entregaram a vida na construção de uma fraternidade maior.

Outros muitos alijados da mesa da Fraternidade Universal

Julio Eduardo dos Santos Ribeiro Reis Simões, anglicano, doutor em Ciências da Religião, num texto intitulado: “’Fratelli Tutti': um tapa na cara do 'cristianismo de mercado’”, ele também se sentiu incomodado com a falta das mulheres. Mas também externou seu incômodo por não ter encontrado na Encíclica referências explícitas aos indígenas, aos negros, bem como a toda a gama de pessoas com opções sexuais diferentes - gays, lésbicas, travestis, transexuais – grupos estes, vítimas de feroz discriminação e violência. São eles hoje os que são mais alijados da mesa da Fraternidade Universal.

Outro ponto que incomodou o autor é que, apesar de o capítulo VIII falar no plural em “As Religiões ao Serviço da Fraternidade no Mundo”, “a leitura do capítulo deixa óbvio que se trata de religiões teístas, de cunho monoteísta, e especialmente as abraâmicas”. Não há referências às religiões indígenas e africanas que vivem uma profunda fraternidade não só entre os humanos, mas destes com a natureza e tudo o que contém, temas tão caros a Francisco.

Apesar disto, todos os que não são nomeados estão muito presentes na encíclica, quando o Papa denuncia a cultura do descarte que domina boa parte das relações sociais. O que vale é o dinheiro, o lucro, o demais, e, sobretudo as pessoas pobres, aquelas que pouco importam para o mercado, não merecem atenção. A Encíclica propõe uma sociedade diferente onde todos caibam, mesmo sem citar nominalmente a cada um. “Se se aceita o grande princípio dos direitos que brotam do simples fato de possuir a inalienável dignidade humana, é possível aceitar o desafio de sonhar e pensar numa humanidade diferente. É possível desejar um planeta que garanta terra, teto e trabalho para todos. Este é o verdadeiro caminho da paz.” (127)

*Colaborador do Setor de Comunicação da Secretaria Nacional da CPT.

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