COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

O II Encontro das agentes e dos agentes da Articulação das CPT’s da Amazônia, realizado em Manaus (AM) de 28 a 30 de agosto, promoveu a partilha de histórias e o intercâmbio de experiências, com o intuito de construir um imaginário diverso da Amazônia e da luta comum travada nela.

 

(por Cristiane Passos / CPT Nacional

fotos: Cristiane Passos e Fernando Schneider / CPT Araguaia)

De acordo com o professor Nirson Medeiros, da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), muitos dos conflitos enfrentados na região amazônica passam, necessariamente, por questões de terras, acessos e controle de recursos naturais, além de conflitos internos das comunidades e também conflitos identitários e de reconhecimento das mesmas.

Para Rosinete, de Parintins (AM), a realidade das comunidades amazônicas é muito peculiar e apenas a convivência nos permite conhecê-la. “Em Rondônia senti que tirei a camisa da falsa realidade e percebi o que vive a minha gente. Somos levados a ter a paz do silêncio, e não a paz da vida”.

Da partilha das experiências dos regionais da CPT presentes na Amazônia, vieram as metodologias construídas conjuntamente, observando e respeitando o modo de vida tradicional dessas comunidades, em consonância com a floresta. Do Acre veio o início do trabalho direto com as comunidades tradicionais, em especial os seringueiros. Segundo relato da equipe, a CPT não acompanhava diretamente as comunidades tradicionais em suas ações de base. Ela se fazia presente, como no assassinato de Chico Mendes, mas não tinha em sua metodologia o acompanhamento a essas comunidades. São comunidades que vivem conflitos diários e muito turbulentos. Quando a Pastoral entrou no processo de denúncias e atuação direta, ela passou a sofrer muitas ameaças e a sede da CPT chegou a ser invadida e destruída. “A lógica do seringal é outra, é outro tempo, tudo é diferente. A presença da CPT fortalece essas comunidades, elas têm muita confiança na CPT”, relatou Darlene Braga, agente da CPT no Acre e membro da coordenação da Articulação das CPT’s da Amazônia.

De acordo com a CPT no Acre, várias conquistas vieram a partir desse trabalho, como a questão do acesso a transporte, capacitação, e mesmo participação das mulheres na militância e espaços deliberativos das comunidades. Já a questão da criminalização continua muito presente, não só para os e as agentes da CPT, que chegaram a ser ameaçados, mas também para várias lideranças e trabalhadores rurais.

Do Amapá veio a experiência de resistência do quilombo Conceição do Macacoari. Em 2005, segundo a quilombola Ana Rita, começam visitas de grandes empresários ao quilombo para comprar as terras. Vez ou outra eles vinham assediar a comunidade, depois do início da entrada da soja no estado. Muito por conta, também, da área ser muito grande. A partir disso, a comunidade sentiu a necessidade de lutar pelo reconhecimento e titulação da área como quilombola, como um território tradicional.

No Amazonas, em janeiro desse ano as famílias da comunidade de Manacapuru sofreram com a derrubada de algumas casas após ação de reintegração de posse. A ação da polícia foi truculenta e o processo judicial dizia que não haviam agricultores, não haviam plantações e nem criação de animais na área, mesmo com a presença de 468 famílias. Esse processo vem se arrastando desde 1993 e os técnicos do Incra já haviam identificado nesse ano 405 famílias vivendo na região. O tamanho da área também não condizia com o que estava no agravante. No município de Itacoatiara, a CPT sempre acompanhou famílias que sofrem pressão para deixar uma área, cujos juízes concederam a reintegração, mas não estão querendo assumir que erraram. Em Presidente Figueiredo, os casos mais graves são ligados a uma grilagem, conhecida como grilagem paulista, por ter ligação com grileiros que são do estado de São Paulo. Essa grilagem tinha o objetivo de arrecadar indenizações quando fosse construída uma hidrelétrica na região, mesmo sem saber onde ela seria construída. Em Lábrea, a equipe da CPT trabalha junto a unidades de conservação. Eles possuem, também, a experiência do manejo de lagos, que são divididos em zonas e as espécies são protegidas dentro desses zoneamentos.

Do estado de Roraima veio a experiência da agricultura familiar aliada à ideia do bem viver. Em 1996 começou na região acompanhada pela CPT, a luta por território, e a Pastoral se uniu a essa luta. O maior trabalho é manter o povo no campo com dignidade. A CPT está presente nesse processo, na resistência desses povos. Nos últimos dez anos, os e as agentes da CPT tem lidado com a expansão da soja na região. Estão fazendo isso no lavrado. O projeto do agronegócio para o estado é acabar com a agricultura familiar e com os territórios das comunidades indígenas. Alemanha e China tem sido os principais compradores de toneladas de soja produzidas em Roraima.

O Maranhão compartilhou a experiência da Teia dos Povos Tradicionais, que é realizada duas vezes ao ano, e reúne várias comunidades tradicionais, como quebradeiras de coco babaçu, quilombolas, indígenas, geraizeiras, entre outras. A teia começou em 2013 num primeiro encontro em que estavam indígenas e quilombolas, no município de Mangabeira, com pessoas de oito estados, onde ao compartilhar o que enfrentavam em suas realidades, viram que não conseguiriam mais lutar sozinhos. Geralmente os encontros são em maio e em dezembro. Já fizeram intercâmbio com a Teia realizada, também, na Bahia. Essa articulação está fincada numa memória dos ancestrais, numa memória profunda da identidade e da importância disso, do saber ancestral, da resistência do levante, de defender o modo de vida tradicional.

Eles estão interessados em discutir a autoproteção por conta do aumento do número de conflitos. A CPT Maranhão avalia, inclusive, que o número de assassinatos no estado diminuiu nesse último ano, por conta, também, desses espaços que proporcionam essa proteção individual a partir da coletividade.

O estado do Mato Grosso, maior produtor de grãos e também o maior usuário de venenos, compartilhou a experiência de acompanhar famílias sem-terra que foram assentadas em uma antiga fazenda de soja. De acordo com Valdir, da CPT no estado, ao chegarem às terras onde se consolidaria o Assentamento Nova Conquista II, as famílias arrancavam a soja com as mãos e diziam “a soja vai dar lugar à vida!”. Já da região do Araguaia veio o enfrentamento diário às grandes empresas do agronegócio. Muitas em conflito com indígenas, já que na região tem a presença dos Tapirapé, dos Xavante e dos Carajás principalmente, e ainda existem os retireiros que são especificamente do Araguaia. Todos eles enxergam a CPT local como ponto de apoio e resistência. Recentemente estão sofrendo uma violência silenciosa do agronegócio, que é o uso constante dos agrotóxicos, que acaba expulsando as comunidades e destruindo o modo de vida das comunidades, bem como a mata tradicional do cerrado. Já na baixada cuiabana as mulheres das comunidades tradicionais estão sendo as guardiãs das sementes crioulas, e possuem ainda uma feira de troca de sementes para manter essa realidade.     

O estado do Pará compartilhou a experiência de construção, junto às comunidades, dos protocolos de consulta das comunidades tradicionais. Uma obrigação do Estado mas que muitas vezes o mesmo se exime da responsabilidade e deixa de cumprir esse papel. A CPT produziu uma cartilha do protocolo de consulta feito na região de Itaituba, e que tem ajudado no processo de construção com outras comunidades. Além disso, o Pará destacou ainda os grandes projetos que tem se espalhado pela Amazônia, como portos, barragens, mineração, hidrovias, ferrovias, e a violência que continua a marcar o estado do Pará com os maiores índices de assassinatos em conflitos no campo no Brasil.

Rondônia apresentou um vídeo da festa do divino da comunidade quilombola do Forte Príncipe da Beira, mostrando a resistência cultural e religiosa dessas comunidades. O regional da CPT contou o processo de resistência da comunidade e a opressão que vivem no dia a dia.  Professoras da escola dentro do quilombo são obrigadas a bater continência para os oficiais do exército e são revistadas todos os dias. O Estado mais uma vez atentando contra os direitos territoriais e o modo tradicional de vida dessas comunidades.

A importância da mística dos povos amazônidas

Para o padre Ricardo Castro, da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e do Instituto de Teologia Pastoral e Ensino Superior da Amazônia (Itepes), “além do aspecto geográfico diversificado e do aspecto histórico e cultural, temos que levar em consideração também a questão mística, misteriosa, da vida dos nossos povos, isso faz com que a terra não seja somente um pedaço de terra, não seja somente geografia, ela é transcendental, esse mistificar o aspecto da terra é importante. O aspecto da educação também é importante e também está ligado ao aspecto da descolonização e vem junto a como olhamos o mundo e como nos relacionamos com as pessoas e com o planeta. A modernidade nos afetou muito e a religiosidade cristã também, nesse nosso distanciamento da terra, então temos que beber em outras concepções de relações com a natureza, como com os indígenas e com os afrodescendentes, para retomarmos essa relação com a natureza e com nós mesmos. Outra linha é a questão das mulheres, não somente porque precisamos dar mais espaço a elas nesse aspecto da descolonização, mas também porque precisamos desenvolver novos valores, vivemos em um mundo muito patriarcal, muito machista, muito autoritário e percebemos isso nas fibras. Temos que ver esse aspecto de mulheres (subjetividade) e do feminino (aspecto da condição humana), temos que entender essa diferenciação”.

Para o padre, a palavra “missão”, muito presente nas partilhas das experiências dos e das agentes da CPT presentes na Amazônia, mostra o elo que une toda a luta na região. “Precisamos agora definir o que é nossa missão porque ela é dinâmica, já que os contextos políticos, sociais, econômicos, vão impondo essa mobilidade para a gente. Mas a missão central para a Pastoral da Terra é a terra. Temos, também, que levar em consideração o paradigma ecológico e todos os conceitos que esse ecologizar implica. Temos que ecologizar a missão e politizar a ecologia. Não podemos esquecer das dimensões da ideia de descolonizar, como cuidar da terra, cuidar da diversidade cultural e cuidar, também, dos processos políticos. Essa palavra é carregada de sentimentos, de paixões”.

Para o religioso, a própria Igreja ao propor o Sínodo da Amazônia, pensando uma nova forma de pensar a atuação nesse bioma, precisa multiplicar seus olhares sobre ele. “O Sínodo, que traz a ideia dos rostos da Amazônia, ele não deve pensar somente nos rostos, mas também nos pés e nos corpos que são diversificados. Uma igreja reino é essencialmente comunitária, temos que resgatar essa ideia de igreja reino, que se concretiza na comunidade. Uma igreja ministerial, leigos e leigas. Uma igreja que faz a opção pelos pobres e pelo cuidado da terra. Precisamos, também, cuidar com quem fazemos alianças e parcerias. Temos que promover a cultura do encontro. Temos que ter cuidado com o uso das mídias, para ter cuidado que nossos encontros deixem de ser corpo a corpo. Ecologizar as relações humanas significa estar junto com outros seres humanos de maneira corpórea. Nossos encontros devem ser interinstitucionais. A cultura do encontro tem que se primar por essa dimensão, e também pela dimensão inter-religiosa. E tem que ser intercultural e inter-pastoral também”.

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