COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

No dia 22 de março de 2019, a liderança do MAB no Pará, Dilma Ferreira Silva, foi uma das vítimas do massacre que vitimou três pessoas no Assentamento Salvador Allende, município de Baião, a cerca de 60 quilômetros do município de Tucuruí (PA). Dilma, seu esposo, Claudionor Amaro Costa da Silva, de 42 anos e um conhecido do casal, Milton Lopes, 38, foram encontrados mortos na entrada da residência, onde funcionava um mercado/bar. Os três foram amarrados, amordaçadas e possivelmente esfaqueados, o laudo técnico ainda não foi concluído até o momento. O corpo de Dilma foi encontrado em uma cama. Segundo o MAB, em 2011 ela participou de uma audiência com a então Presidenta Dilma Rousseff, quando entregou documento pedindo uma política nacional de direitos para os atingidos por barragens e atenção especial às mulheres atingidas.

No início da noite de 26 de março de 2019, a Polícia Civil prendeu o principal suspeito, Fernando Ferreira Rosa Filho, conhecido como “Fernandinho”, que seria o mandante do massacre. Fernandinho é acusado de vários crimes na região Sudeste do Pará, tais como: envolvimento com tráfico de drogas, agiotagem, receptação, roubo a banco, homicídio e tentativa de homicídio, e grilagem de terras. Ainda de acordo com a polícia e segundo os depoimentos coletados, Fernandinho não gostava da “vizinhança” e do fato de parte do assentamento estar em terras que ele dizia serem dele. Isso teria motivado a ordem de assassinar Dilma, seu esposo e o amigo deles.

Há ainda a denúncia de que o acusado estaria construindo uma pista de pouso clandestina para aeronaves de traficantes de drogas, na fazendo palco do segundo massacre, e por isso, talvez não quisesse ser incomodado por ninguém, muito menos por vizinhos ligados a movimentos sociais e funcionários insatisfeitos.

A polícia confirmou, ainda, que o mandante tinha contato direto com os executores antes, durante e depois dos crimes. Seriam eles quatro irmãos: Marlon Alves, Cosme Francisco Alves, Alan Alves e Glaucimar Francisco Alves. Contra Glaucimar já existia mandado de prisão preventiva em aberto desde 2015, expedido pela Comarca de Tucuruí, por crime de homicídio. Já Marlon é foragido do Sistema Prisional por ação penal também por homicídio. Até o momento apenas o acusado de ser o mandante dos dois massacres, Fernandinho, foi preso.

Histórico da área

A antiga Fazenda Piratininga, hoje Assentamento Salvador Alende, possui um longo histórico de conflitos. O local foi ocupado há 12 anos por mais de 400 famílias sem-terra. Desde então, até se tornar um assentamento, foram vários ataques de pistoleiros e conflitos com madeireiros.

Em 2007, aproximadamente 480 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam a Fazenda Piratininga, localizada no quilômetro 50 da BR-422, conhecida como Transcametá, no município de Baião, no Pará. O nome dado ao acampamento foi Salvador Alende. Renato Lima era o pretenso proprietário da área.

Ainda naquele ano, no dia 06 de agosto, um grupo formado por quatro homens fortemente armados foi até o acampamento e disparou vários tiros - ninguém ficou ferido. Os pistoleiros estavam em uma caminhonete e em uma moto.

Dias depois, as famílias foram vítimas de um segundo ataque. Um grupo formado por cerca de 15 homens armados chegou ao acampamento, disparou vários tiros no local, e agrediu fisicamente os homens, mulheres, jovens e crianças. Algumas pessoas, inclusive, tiveram braços e pernas quebrados, outras pessoas fugiram do ataque e se abrigaram em uma mata.

Após esse intenso ataque, as famílias foram obrigadas a deixar a fazenda, e acamparam na sede do Instituto Nacional de Colonização de Reforma Agrária (INCRA) em Tucuruí. Algum tempo depois, os/as acampados/as retornaram para a fazenda, mesmo circulando boatos na região de que um grupo de pistoleiros se preparava para um novo ataque às famílias.

Já no ano de 2009, no mês de novembro, o MST do Pará, durante a Jornada de Luta pela Reforma Agrária, ocupou o INCRA de Tucuruí para denunciar os conflitos agrários na região e pressionar os órgãos públicos para que fazendas, como a Piratininga, fossem desapropriadas para fins de reforma agrária. Segundo o movimento, as terras da Fazenda Piratininga eram, na verdade, da União e haviam sido griladas. Cerca de 220 trabalhadores e trabalhadoras participaram da ação.

Durante esse ato, o movimento também denunciou a situação conflituosa entre os posseiros e madeireiros, que desmatavam as áreas de reserva, ameaçavam e tentavam expulsar as famílias daquelas localidades.

Em 2010, no mês de maio, cerca de 1.300 famílias de diversas áreas ocuparam a sede do INCRA no município de Marabá, e a pauta de reivindicações não era muito diferente do ano anterior. As famílias do então Acampamento Salvador Allende denunciavam a violência por parte de madeireiros, e que nenhuma autoridade se manifestava para a resolução da problemática.

Em 2011, cerca de 50 famílias da ocupação na Fazenda Piratininga acamparam na Praça do Mogno, em Tucuruí, para reivindicar o assentamento na área. Nesse mesmo ano, as famílias sem-terra, acompanhadas pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF/PA) e pelo MST, sofreram uma reintegração de posse. Todavia, após a saída das famílias, o INCRA começou a medição dos lotes. Algum tempo depois o acampamento se tornou Assentamento Salvador Allende.

(Imagem: MAB)

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