COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

A Romaria e o Grito aconteceram ao longo desta terça-feira (1º). Cerca de 500 pessoas participaram. Em Romaria pelo Centro Político Administrativo da capital, romeiros e romeiras pararam em cinco pontos, onde cruzes eram fixadas no chão, simbolizando a luta, o sacrifício e a resistência dos povos, enquanto se ouvia a música do Chico Buarque, "funeral de um lavrador". Confira os depoimentos dos/as participantes:

 

(Por Elvis Marques, CPT/Andrés Pasquis, Gias

Imagens: CPT)

Ontem, bem cedinho, centenas de pessoas já se preparavam, na Paróquia Sagrada Família, em Cuiabá, para a "1º Romaria dos Povos e Comunidades do Cerrado: Um grito dos excluídos na cidade e no campo em Mato Grosso". Mais de 500 romeiros e romeiras participaram do evento, que aconteceu durante todo o primeiro dia de setembro. Essas mulheres, homens, jovens, idosos, crianças chegaram a capital mato-grossense em vários ônibus, carros, além das comunidades urbanas de Cuiabá e região metropolitana que estiveram presentes (Veja abaixo).

Celebrar a resistência dos povos e comunidades, denunciar as injustiças no campo e na cidade, expondo a devastação do Cerrado, as violências contra as famílias camponesas com terra e sem terra e a exclusão da maioria da população. Esses foram os principais objetivos dessa 1ª Romaria, que aconteceu, juntamente, com o 21º Grito dos Excluídos, que trouxe o tema: “Que país é este, que mata a gente, que a mídia mente e nos consome?”.

Na igreja da Paróquia, no primeiro momento da manhã houve uma acolhida com "chá com pão", tradicional aqui no estado. Após isso, a Pastoral da Saúde chamou os/as participantes a formarem duplas e, em fileiras, participarem da Fila do Cuidado, onde cada pessoa devia transmitir um cuidado e energias positivas aos companheiros e companheiras que passavam no meio dos corredores.

Já por volta das 14 horas, os veículos começaram a parar para o povo descer na Praça Monumento Ulysses Guimarães, na Avenida CPA, em Cuiabá - ponto escolhido para dar início a Romaria. As pessoas desciam com faixas, cartazes, imagens religiosas, terços, cruzes. Além de trazerem, em suas camisetas, rostos de mártires da luta, frases, ou siglas de seus movimentos sociais. Foi nesse ambiente que romeiros e romeiras entoaram cantos, expuseram histórias dos conflitos que sofrem no campo e na cidade.

Para o momento da Benção das Águas, várias pessoas trouxeram vasilhas com água dos rios do Estado, próximos das comunidades em que vivem, como: Rio Cuiabá, Teles Pires, Ararial e outros. Todas essas águas foram acolhidas num grande pote de barro e, uma vez misturadas, foram abençoadas e aspergidas no povo.

Em Romaria, as/os participantes começaram a percorrer, por volta das 15h40, ruas que passam pelo Centro Político Administrativo de Cuiabá, CPA. A Romaria e o Grito dos Excluídos fizeram cinco paradas em frente a órgão públicos: Instituto de Terras de Mato Grosso (Intermat) e Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato); Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) e Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso (TJMT); Palácio Paiaguás; Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Fundação Nacional do Índio (Funai); com término no Fórum de Cuiabá.

As paradas foram pensadas em locais estratégicos para a luta dos povos do campo. Espaços públicos que têm omitido as suas responsabilidades e negado os direitos dos romeiros e romeiras. Na frente de cada órgão, cantos que refletem os desafios e conquistas das comunidades eram entoados. Relatos de vida e de luta eram partilhados do alto do carro de som. E em cada uma dessas cinco paradas, cruzes eram fixadas no chão, simbolizando a luta, o sacrifício e a resistência dos povos, enquanto se ouvia a música do Chico Buarque, "funeral de um lavrador".

“A situação no campo é muito difícil. Além dos despejos [20 mil famílias no MT, entre 2000 e 2014], a violência vem aumentando. Só em 2014, cinco lideranças camponesas foram assassinadas no estado”, destacou Paulo César, da coordenação executiva nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Confira, abaixo, algumas falas durante esses momentos:

A 1º Parada e cruz fincada no chão ocorreram em frente ao Instituto de Terras de Mato Grosso (Intermat).

"Os agrotóxicos invadiram e consumiram nossa mesa. E também nas lavouras, que são jogados com avião. Pessoal do agronegócio quer produzir e ter seu lucro a qualquer custo, sem pensar na natureza e nas pessoas. Nós, lá em Rondonópolis, quando você sabe das pessoas que faleceram sempre é assim: ou alguém foi assassinado ou morreu com câncer. É difícil você encontrar uma família que não tem caso de agrotóxico na família. E isso é resultado de todo o veneno que é usado nas lavouras, na nossa alimentação, na água e na natureza como um todo. Nós repudiamos tudo. Queremos a luta pela vida. Temos certeza que essa 1º Romaria é um grito contra tudo isso. Nós queremos é produzir alimentos saudáveis".- Baltazar Ferreira

A 2º Parada da Romaria aconteceu na sede do Tribunal de Justiça do Mato Grosso (TJMT).  

"Venham ver o que vocês causam à população pobre, excluída. Saiam de seus gabinetes e venham. Despejos de mais de 20 mil famílias, todas com decisão do poder Judiciário. Porque interessa ao poder Judiciário e ao estado que as terras da União, do estado e todas as terras permaneçam na mão dos latifundiários, porque concentra com a terra o poder político, econômico, a riqueza. O histórico no Mato Grosso é, desde sempre, manter o poder na mão de poucos. Continua sendo um estado excludente, assassino, desigual, injusto, concentrador, tudo isso com a conivência e a participação direta do Judiciário. Aqui [Tribunal de Justiça], onde dizem para nós que é a 'Casa da Justiça', Justiça pra quem? Ou melhor, injustiça, porque para os pobres, para os negros, nós temos injustiça. Justiça só tem para os ricos. Para quem tem poder político, para quem tem poder econômico. E essa conivência, essa injustiça, prova está aqui: do Acamamento Boa Esperança, terra da União. Mais de 14 mil hectares ocupado por um fazendeiro grileiro. E o que eles fazem para não dar a terra para o povo? Distribuem as ações. A Juíza da Vara Agrária se acha no direito de julgar ação que é da esfera federal, da Justiça Federal. Então o Judiciário é contraditório quando é para favorecer os latifundiários e os ricos. Quando é para favorecer os pobres, ele diz que é imparcial, quando, na verdade, nós sabemos que vocês são parciais. Porque vocês defendem a classe de vocês. Com isso nós temos a hereditariedade do Judiciário, hereditariedade de família e de classe. De família por quê? Vamos olhar o histórico de juízes e desembargadores daqui, para saber se não são filhos ou netos ou assessores. Hereditariedade de classe porque pobre não tem vez de fazer parte do Judiciário. O Judiciário é para quem tem dinheiro, posições, por isso é um Judiciário racista e preconceituoso. Para o Judiciário nós somos uma classe perigosa. Perigosa porque lutamos por direitos e por uma vida digna. Para ele nós somos perigosos, porque quando os trabalhadores e trabalhadoras do campo entenderem que quem produz as riquezas do país somos nós, quando tomarmos consciência disso, eles sabem que os privilégios deles vão acabar. Mas nós temos resistência coletiva". - Elizabete Flores

A 3º Parada da caminhada foi em frente à sede do governo de estado, o Palácio Paiaguas, onde também estão localizadas a Casa Civil e Casa Militar, que concentra o Comitê de Conflitos Agrários. O governador Pedro Taques foi vaiado pelas centenas de pessoas, enquanto uma cruz era amarrada às grades da entrada. Nesse momento, além de cobrar, do Chefe do Executivo, os compromissos assumidos em campanha, houve denúncia sobre despejo que aconteceu há poucos dias:

"Povo sofrido que luta por um pedaço de terra, que luta por dignidade e por Justiça nesse País. Nesse estado não temos. Queremos, governador, que você olhe por esse povo que votou em você, achando que você ia fazer alguma coisa por nós. Estamos aqui. Faça o favor de nos receber". - Rosália - MTA de Rondonópolis

"Nós, enquanto entidades, no período eleitoral, fizemos um documento chamado Agenda Sustentável e Democrática para o estado do Mato Grosso. Nós colocamos uma série de questões que cobrávamos dos candidatos e pedíamos um posicionamente em relação a esse texto. O governador [Pedro Taques], assim como os demais candidatos, se pronunciou se dizendo que estavam de acordo com essa agenda. E dizendo que iriam cumprir e tentar executar a medida da grande agenda que nós estávamos fazendo. Uma das questões que a gente colocou era ter um diálogo permanente com a sociedade civil. Infelizmente, esse diálogo até agora não aconteceu. A gente tem uma agenda sustentável para o estado do Mato Grosso. Nós estamos de frente ao Palácio, onde existe a Casa Civil e a Casa Militar, onde há o Comitê de Conflitos Agrários, onde os despejos de cada um de vocês são decididos. Se vocês que estão aqui e já foram despejados, saí daqui de dentro desse Palácio também os despejos, sem nenhum critério. Despeja-se segundo os interesses. Se despeja, principalmente, com função de atender a expansão do latifúndio. Lembrando que, há duas semanas, teve uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa quando um representante do governo falou: Não pensem que tem terra para todo mundo. A terra é para quem realmente tem a propriedade. Não se questiona se essa propriedade foi grilada, foi conseguidada com massacre de povos. Então esse é espaço do governo que não queremos. A sociedade civil quer realmente um estado que seja democrático e se preocupa com a sustentabilidade. Temos uma lista de ameaçados de morte, e o estado não quer implantar um programa de proteção de defensores de Direitos Humanos". Inácio Werner - Centro Burnier Fé e Justiça

"É com muita tristeza que o nosso movimento, o MST, mais precisamente no acampamento em Jaciara, com 800 famílias, que busca dignidade e um pedacinho de chão foram totalmente humilhadas. Digo isso porque a tropa do governador foi lá com armamento de guerra. Não teve nem um pouco de consideração e solidariedade com o povo que, de certa forma, dá o sustento para esse País. Então, com muita resistência, as famílias não deixaram a polícia fazer o que queria lá no acampamento. Foi com muita resistência. A gente colocou a pauta e disse que dessa forma não vamos deixar as terras". - Wellington, do MST - falou sobre o Acampamento Padre José Tencat

A 4º Parada da Romaria em frente às sedes do Incra e da Funai, onde os romeiros acusaram os órgãos de não cumprirem com seus deveres, como a aplicação da Reforma Agrária e, também, a demarcação justa de terras indígenas. Uma cruz foi acorrentada na entrada da Funai:

"Durante essa passeata eu venho me perguntando: Que País é esse? Que estado é esse? Em 500 anos de Brasil, em relação a nós, os povos indígenas, nada mudou. Ainda está acontecendo genocídio. Ainda acontece infanticídio. Ainda acontece aquilo que é mais perigoso para qualquer pessoa, que é o etnocídio, que é você destruir a pessoa por completa. Retirar tudo que tem dentro da memória daquela pessoa, fazer com que ela se sinta absolutamente nada. São coisas sérias que estão acontecendo, infelizmente conosco, povos indígenas desse País. Infelizmente, nós, não temos oportunidade de falar lá no Congresso, na Assembleia Legislativa, nas Câmaras Municipais desse País".- Indígena Ildefonso Borocuoda

A caminho do último ponto de Parada da Romaria, as pessoas ficaram sabendo que os representantes do Incra e do governo de estado haviam se comprometido em recebê-las, ainda esta semana. “A rua é o lugar! Temos que ocupar ruas, praças, e órgãos para sermos ouvidos”, celebravam os/as participantes.

Fórum de Cuiabá foi o palco final da Romaria. Espaço, também, de uma das principais reivindicações dos romeiros e romeiras: a corrupção e violência do sistema judiciário do estado. Adriana Sant’Anna Coninghan, juíza da Vara Agrária, foi acusada de abuso, ao emitir diversas liminares de despejo contra trabalhadores e trabalhadoras rurais. Na frente do Fórum, ainda foram lembrados/as pessoas assassinadas no campo. Várias cruzes foram fixadas no jardim do órgão:

"A nossa luta é única. A razão por estarmos aqui é porque todos nós sofremos com as decisões dessa magistrada [juíza Adriana Santana] que não é preparada para cumprir seu papel. Se a senhora, doutora Adriana, juíza da Vara Agrária, estiver nos ouvindo, venha ver as pessoas que você colocou para fora de suas casas, destruiu suas famílias, seus alimentos, seus animais. O estado inteiro do Mato Grosso está cansado de suas decisões". - Antonio Bento, trabalhador sem terra de MT, despejado por decisão da juíza

"Nós ficamos três dias debaixo de chuva sem nenhum respaldo. Sem dó nem piedade. Eu também quero dizer para a senhora [juíza] 'deixe esse cargo e vá embora. A senhora não tem coração'". - Outra trabalhadora despejada no estado

"Eu estou aqui representando as 100 famílias que a doutora Adriana colocou novamente debaixo de lonas, nesse sol. Tirando a gente como se não fossemos cidadãos, com direito a moradia. E estamos prestes, novamente, de ser despejados por causa de Liminar da doutora. Estamos aqui prestando nossa indignação e mostrando que nós queremos é trabalhar. E a doutora tem que dar oportunidade, porque esse povo não quer roubar, quer é trabalhar a terra para plantar". - Representante do Acampamento Boa Esperança, em Antônio Bento

"Eu sou a Rosália, vim representando o MTA, e vim falar do despejo que nós sofremos pela juíza em 2013. As 350 famílias foram despejadas e os trabalhadores não tinham direito nem de tirar as coisas. Eu fui algemada e presa, simplesmente porque estava tentando defender os trabalhadores. Quantas vezes eu vim aqui, nesse Fórum, como nosso advogado, trouxe um papel favorável do INCRA, dizendo que a área era favorável para Reforma Agrária, e entreguei na mão dessa juíza. Nem assim comoveu ela. Esse pessoal que está aqui hoje, doutora, são os filhos que você deixou despejar, que estão na BR debaixo de lona. Nossas 350 estavam produzindo. Hoje não temos condição nenhuma". - Rosália, MTA

Organização

A Romaria foi organizada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Centro Burnier Fé e Justiça (CBFJ), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), Movimento RUA, Levante Popular da Juventude, Associação Brasileira de Homeopatia Popular, Consciência Negra, Paróquia Sagrada Família, Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), Centro de Estudos Bíblicos (Cebi), Formad, Grupo de Intercâmbio em Agroecologia (GIAS).  

Os/as participantes

Romeiros e romeiras vieram de diversos municípios do estado: Rondonópolis, São José do Povo, Poxoreu, Jaciara, Guiratinga, Jucimeira, e Itiquira, Nova Canaã do Norte, Vera, Sinop, São José dos Quatro, Cárceres, Acorizal, Jangada, Nossa Senhora do Livramento, Colniza, Juína e outros.

Movimentos, associações e organizações do campo presentes: Associação a Terra é Nossa, Alunos e educadores de duas escolas do campo de Jangada, Associação União da Vitória, Associação Pitomba, Associação de Trabalhadores Rurais de Rio Ferro, Associação Monjolinho de Nossa Senhora do Livramento, Fórum de Direitos Humanos da Terra (FDHT), Grupo de Mulheres de Jangada, Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Rondonópolis, Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Itiquira, Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais São José do Povo, Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Nossa Senhora do Livramento, Movimento dos Trabalhadores Assentados e Acampados (MTA), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra do Mato Grosso (MTS), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores/as Rurais 13 de Outubro, Movimento de Luta pela Terra (MLT), e outros.

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