COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

 

 

 

No último dia 4, um domingo, dia de São Francisco de Assis, aconteceu a 18ª Romaria da Terra e das Águas de Minas Gerais no Território quilombola Brejo dos Crioulos, no Norte de Minas, na diocese de Janaúba e arquidiocese de Montes Claros. Cerca de duas mil pessoas participaram. Confira o relato sobre esse momento:

 

(Por frei Gilvander Moreira e Maria do Rosário Carneiro)

Território Quilombola: luta e resistência. Juntos fazemos a diferença.

“Eu darei esta terra à sua descendência,” disse Deus a Abraão. (Gn 13, 15)

Em uma mística libertadora, de resistência e defesa da terra, das águas, da dignidade humana e de compromisso com a preservação ambiental e cultural, cerca de 2 mil pessoas marcharam, sob um sol escaldante, sete quilômetros por estrada de terra, abraçando aquele chão sagrado, cantando, rezando, refletindo e assumindo compromisso de continuar a luta por direitos.

O almoço comunitário foi no meio da caminhada, na comunidade de Furado Seco. Quanta fartura de alimentos e de hospitalidade! Após a caminhada, a missa de encerramento da Romaria foi presidida pelo arcebispo da arquidiocese de Montes Claros, dom José Alberto, e pelo bispo da Diocese de Janaúba, dom Ricardo, ao lado de vários padres e com o povo.

A Carta da Romaria, endereçada também à presidenta nacional do INCRA, exige a titulação do Território. “Já cansamos de esperar”, alertou José Carlos, o Veio, presidente da Associação Quilombola.

Às 18 horas, hora da Ave Maria, foi erguido e fincado, como símbolo da XVIII Romaria da Terra e das Águas de Minas Gerais, um cruzeiro de aroeira, de 10 metros de altura, com duas foices e enxada nos braços da grande cruz.

Na companhia de Carlúcia e do cantor Carlos Farias, após sermos carinhosamente acolhidos na Comunidade de Araruba, uma das oito comunidades quilombolas de Brejo dos Crioulos, acompanhados por um jovem quilombola, o Tequinho, fomos para a Comunidade Orion, chamado de Assentamento Centro, onde aconteceu uma noite cultural belíssima.

Tequinho nos contou sua história e falou da luta da Comunidade. Ele sofre de epilepsia e está tentando a aposentadoria por invalidez. O INSS lhe negou e ele teve que entrar na justiça, mas precisa levar um casal de vizinhos, como testemunhas, no dia da audiência e nem ele e nem seus vizinhos têm condições de pagar as passagens. Percebemos o limite do acesso à Justiça que mesmo tendo a possibilidade de acesso a Justiça gratuita (sem pagamento de custas processuais), muitos são excluídos, porque o acesso é limitado. Não seria o caso do juiz ir ao quilombo e ouvir as pessoas? Quem sabe um dia?

Tequinho, pessoa muito alegre e irreverente, nos contou vários casos, sempre com uma pitada de ironia, mas um dos casos que mais ênfase colocava era o da ida a Brasília, quando foi uma caravana pressionar o governo federal para que desapropriasse as terras.

Na noite cultural, tudo era cultura negra, dos quilombos do Brasil, da luta e da resistência quilombola. Os moradores faziam questão de contar e recontar a história da conquista da terra. Alegria irradiava!

No palco das apresentações, crianças e jovens quilombolas cantavam e dançavam transmitindo recados na defesa da terra e das águas, conclamando para o cuidado com a natureza. Em seguida, diversos artistas populares se apresentaram, dentre eles, Farinhada, Carlos Farias e João Bento.

Refrescando a memória: Brejo dos Crioulos foi povoado pelo povo negro que fugiu da escravidão nos canaviais do nordeste e, subindo o Rio São Francisco, chegaram à região do Rio Verde, no Norte de Minas. Em 1999, com a presença e acompanhamento da Comissão Pastoral da Terra, o povo quilombola tomou consciência dos seus direitos e, após o laudo antropológico afirmar a identidade quilombola, muitas lutas foram travadas.

Em 2011 muitos quilombolas se acorrentaram em Brasília diante do Palácio do Planalto. A presidenta Dilma se sensibilizou, chamou os quilombolas para dentro do palácio e assinou decreto desapropriando 17.302 hectares de terra. A polícia iniciou, mas não realizou o processo de desentrusão de vários fazendeiros que estavam grilando o território. Foi na luta e na raça que os quilombolas de Brejo dos Crioulos foram ocupando as fazendas de grileiros e reconquistando o seu território. Mas ainda falta a titulação que será em nome da Associação Quilombola Brejo dos Crioulos. Não será propriedade individual, mas coletiva.

“Temos muito mais a conquistar”, diziam muitos quilombolas. “Já faz quase três anos que a chuva não cai por aqui”, desabafou uma quilombola.  Mas o povo segue com fé, na luta coletiva e na resistência.

A Romaria foi precedida por uma semana de missões. Dezoito missionários/as da terra e das águas visitaram, conviveram e celebraram com o povo das oito comunidades quilombolas de Brejo dos Crioulos.

Enfim, que beleza a expressão de fé libertadora misturada com a vida e de uma forma muito especial marcada pelos traços do povo negro quilombola. Despedimo-nos assumindo o compromisso com a continuidade da luta por direitos e até a XIX Romaria em 2016.

Belo Horizonte, MG, 06 de outubro de 2015.

 

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